É um dos instantes singulares no qual se tem consciência da grandiosidade Divina. E a mãe, que passou 40 semanas apreensiva, enfrentando o desconforto do final da gravidez, esquece todas as dores, vivenciando apenas essa experiência única.
Esse milagre, obra do poder de Dus, está presente no relato da Bíblia sobre a imensa alegria de Eva após ter dado à luz seu primeiro filho. Ao segurar em seus braços carne de sua própria carne, sente uma alegria que jamais sentira e percebe que Dus participou nesse processo de criação. Um midrash explica que há três parceiros no nascimento de uma criança: o pai, a mãe e Dus. O pai é o responsável pela matéria branca, como os ossos, cavidades, unhas, cérebro e a parte branca dos olhos. A mãe é quem dá a matéria vermelha, que forma a carne, o cabelo, o sangue, a pele e a parte escura dos olhos. Dus oferece o espírito, o hálito, a beleza dos traços, a capacidade de ver, ouvir, pensar, falar e andar.
Desde os primórdios do judaísmo as crianças são consideradas algo precioso, que deve ser protegido, merecedor de tempo e energia. Esta visão não era comum nas civilizações antigas. Estudos arqueológicos e documentos antigos revelam que o infanticídio era aceito como forma mais efetiva de controle de natalidade, tanto na antiga Grécia quanto em Roma. Recém-nascidos eram abandonados nas ruas e nos campos.
Para o judaísmo, as crianças são os depositários de nossa tradição milenar, a garantia da continuidade do povo judeu. Sem nossos filhos não há judaísmo e é dever dos pais cuidar deles e protegê-los física e espiritualmente. As tradições para se receber e proteger a criança variam de comunidade a comunidade e de época a época. Nos tempos bíblicos, em Israel, era costume celebrar o nascimento plantando uma árvore cedro para homens e pinheiro para mulheres. A criança iria crescer assim como a árvore. No dia do casamento, os pais dos noivos construíam com estas árvores o aposento nupcial. Em algumas comunidades, são colocados perto da cabeça do bebê livros com os Salmos de David, para protegê-lo. Em outras, fitas vermelhas ou pedras azuis utilizadas para evitar o ayn raá mau olhado.
Os meses que antecedem o nascimento são cheios de feliz expectativa. Os pais estão ansiosos para que tudo esteja pronto para receber seu filho. Mas, apesar da ansiedade, alguns casais têm o costume de adiar os preparativos até o bebê nascer.
Algumas diferenças marcam as tradições do brit milá nas diversas comunidades sefaradim. Na comunidade síria, por exemplo, costuma-se fazer na noite que antecede o brit uma reunião religiosa festiva chamada Shadd-il-Asse. Os convidados parentes, amigos e rabinos lêem em aramaico trechos do Zohar visando a proteção do recém-nascido. Segundo os ensinamentos cabalísticos, um menino passa a ser judeu por completo somente após o brit, quando se torna parte da Aliança de Dus com o povo judeu, através de Abrahão. Assim que a leitura termina, são cantadas músicas típicas sefaradim, enquanto são servidos doces e refrescos.
O brit milá é realizado, em geral, logo cedo pela manhã. A avó costuma ser a madrinha e entregar o bebê a alguém a quem se queira homenagear. Em seguida, o bebê passa para os braços do irmão mais velho (ou de outro membro da família), que terá a honra de colocar a criança sobre a almofada ou a cadeira de Eliahu Hanavi. Na comunidade síria não há cadeira especial para Eliahu Hanavi, mas sim um parochet tecido que cobre a arca para a cerimônia especial no qual está inscrito o nome do profeta. Este é colocado em uma cadeira que simboliza a de Eliahu e na qual ninguém se senta. |