Pois, como nos ensina o Talmud, quando Dus ofereceu a Torá ao povo judeu, a existência de todo o universo estava em jogo. Não tivessem os judeus aceito a Torá, o mundo inteiro teria deixado de existir (Tratado Shabat, 88a).
Mas, qual é o propósito da Torá, para que toda a existência estivesse baseada nela? E por que constituía o principal produto de uma única Revelação Divina?
A Parábola do Ancião
Antes de começarmos a entender o significado supremo da Torá, temos que definir, primeiro, aquilo que este Livro Sagrado não é. A Torá não é um livro de histórias sobre a tradição e a cultura judaica. Como afirma o Zohar, o livro que é a base do misticismo judaico, tende piedade daquele que pensa que a Torá apenas nos relata histórias e assuntos banais. Se assim fosse, nós também poderíamos, ainda hoje, compor uma Torá que abordasse questões ordinárias, e a faríamos até melhor!. É certo que o Todo-Poderoso não entregaria a Moisés uma obra de Sua Autoria - letra por letra - para que servisse apenas para contar a antiga história judaica.
Contrariamente ao que se pensa, o propósito fundamental da Torá não é incutir a disciplina e a moralidade no mundo. A obrigação de ser justo não é exclusividade do povo judeu. O fato de a Torá ter servido, posteriormente, de base para o humanismo, a moralidade, a justiça e a bondade para grande parte da humanidade foi a conseqüência e, não, a causa da sua outorga. De fato, os princípios básicos de justiça e de conduta humana adequada foram transmitidos por D'us ao homem antes do recebimento da Torá. No alvorecer da Criação, D'us deu a Adão, o primeiro ser humano, seis regras às quais aderir. Mais tarde, após o Dilúvio, Ele atribuiu mais uma a Noé. Estas sete regras são conhecidas como as Leis de Noé e se aplicam, até hoje, aos homens.
O rabino Adin Steinsaltz escreve que a importância dos Dez Mandamentos não é tanto o seu conteúdo, mas a sua Origem. Tanto os Mandamentos quanto todos os preceitos da Torá foram promulgados por Dus e é isto o que lhes confere força e significado. Os códigos de outros povos e mesmo as leis de Noé nunca foram abertamente declaradas por Dus diante de todo um povo. Outros códigos de Leis, originados ou transmitidos unicamente por seres humanos mesmo se forem semelhantes aos mandamentos da Torá - estão sujeitos a mudanças. Mas as leis explicitamente promulgadas pelo Criador e Senhor do Universo são absolutas. Como a Fonte que as origina é Infinita, Imutável e Perfeita, também o são Suas leis. Nenhum ser humano pode mudá-las nem tampouco delas se livrar.
Mas a outorga da Torá teve um significado ainda maior: foi um ato de Cima para baixo, cruzou a distância infinita entre Dus e o mundo que Ele criou. Pois está escrito: Eis que o Senhor, nosso Dus, nos fez ver a Sua glória e a Sua grandeza, e ouvimos a Sua voz no meio do fogo; eis que hoje vimos que Dus fala com o homem e este continua vivo. (Deuteronômio, 5: 24).
O Midrash nos conta que quando Dus criou o mundo, Ele decretou que. ..os Céus pertencem ao Senhor, mas a terra, deu-a Ele aos filhos dos homens (Salmos, 115: 16). Mas ao dar a Torá a Israel, Ele permitiu que a espiritualidade Divina descesse aos domínios inferiores e que estes ascendessem ao Reino dos Céus. Pois está escrito: O Senhor desceu para o cume do Monte Sinai; convocou Moisés para o topo do monte, e Moisés subiu (Êxodo, 19:20).
Como Dus é Infinito e inteiramente espiritual, este verso da Torá não deve ser entendido literalmente. Significa que Dus permitiu que Sua Divindade descesse e inundasse o que é terreno, ao passo que permitiu que seres humanos ascendessem espiritualmente.
Mas, como pôde isto ser realizado por intermédio de um livro de estatutos e relatos, mesmo sendo de Autoria Divina?
A resposta é que a Torá é a própria sabedoria e ciência do Eterno Dus. Ela é chamada de A Parábola do Ancião. O Ancião é, obviamente, O Santificado, Abençoado seja Aquele que precedeu a criação. A Torá é a Sua Parábola por ser uma alegoria de conceitos espirituais mais elevados. O Rebe de Lubavitch ensinou que cada uma das leis e histórias da Torá mesmo as mais mundanas são parábolas acerca das mais profundas realidades espirituais. E, como os simples mortais não podiam compreender nem se relacionar com um Dus Infinito, a Torá foi dada para servir como o meio físico para fazer chegar até nós a sabedoria e a vontade do Criador. O Zohar afirma a respeito: A Torá é recoberta de vestimentas que se relacionam com este mundo, senão, de outra forma, o mundo não teria como a receber e absorver. É, portanto, o elo entre os mundos espirituais e nossa existência terrena.
Dois notáveis exemplos de mandamentos físicos com grande valor espiritual são os da circuncisão e do uso dos tefilin. Um dos livros muito profundos da Cabalá afirma: O homem está vinculado à Mãe de Israel (Dus) através de dois símbolos, os tefilin e o Pacto de Abrahão, isto é, a circuncisão (Tikunei Zohar, 7a). Através de um mandamento físico marcado na carne de cada judeu do sexo masculino e, através dos tefilin, que são objetos físicos, nós nos conectamos com a Fonte Única de Espiritualidade e Santidade. As mulheres judias também têm mandamentos físicos de infinita importância espiritual. Dentre eles está o acendimento das velas de Shabat e das Festividades Judaicas, e também a imersão no mikve. |