SHAVUOT
SHAVUOT, O PROPÓSITO DA CRIAÇÃO


Moisés recebendo as Leis do Monte Sinai, Wuttenberg, 1290

“O propósito da Criação é fazer com que Israel aceite e cumpra os preceitos da Torá” (Rashi; comentário sobre Bereshit 1:1).


Edição 32 - Abril de 2001
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Os cabalistas, mestres do misticismo judaico, ensinam que antes da Criação do universo, a Luz de D’us Infinito, Or Ein Sof, preenchia toda a realidade. Quando D’us decidiu criar o mundo, Ele retraiu a Sua Luz Infinita de um determinado ponto, criando um “vácuo”, e cedendo espaço para a Sua Criação. Dentro desse espaço, Ele criou o mundo, que são receptáculos designados para receber a Luz Divina. Mas o universo não conseguiu resistir à intensidade da emissão de Luz Divina, e então se estilhaçou. Todo o recém-criado universo entrou num estado de caos, onde a luz e a escuridão poderiam então coexistir.

A Cabalá explica que o nosso mundo é fruto dos receptáculos estilhaçados, e que o propósito de toda a existência é elevar o mundo para que ele possa finalmente conter a Luz Divina. Os cabalistas chamam esse conceito de tikkun olam – “o conserto do mundo”.

O fundamento da religião judaica é, portanto, a conscientização de que o mundo foi criado com propósito. O Eterno D’us criou o mundo para que este resplandeça em sua Luz Infinita, mas só ao ser humano foi dada a missão de possibilitar isso. O Midrash - livro de profundo misticismo disfarçado em histórias alegóricas - explica que o Todo-Poderoso criou um universo físico porque desejava ter uma Morada aqui em nossa realidade terrena. Isto significa que D’us deseja ser encontrado no mundo físico que Ele criou e, desta forma, permeá-lo com a Revelação de Sua Bondade Infinita. Mas, para que isto possa ocorrer, o homem, através de suas boas ações, precisa fazer do mundo um receptáculo apropriado para a Luz Divina. Esta é a explicação, dentre o conhecimento humano, para explicar a razão e o propósito de toda a Criação.

O recebimento da Torá

A festividade de Shavuot, que é comemorada durante dois dias, começa no sexto dia do mês de Sivan do calendário hebraico. Ocorre 50 dias após o primeiro dia de Pessach, que marca o êxodo do povo judeu do Egito. Shavuot comemora a primeira e única vez em que o Criador e Mestre do Universo Se revelou abertamente diante de um povo. A libertação dos judeus do Egito e todos os seus surpreendentes milagres e salvações foram meros prelúdios que levaram a esse evento de significado infinitamente maior.

A Torá relata que a Revelação de D’us diante do povo judeu foi um evento dramático e estremecedor, anunciado por uma nuvem de fumaça, relâmpagos, trovões e toques de shofar (Êxodo, 19:16). Como D’us é um Ser puramente espiritual, o povo judeu não pôde vê-Lo, mas apenas ouvir Sua voz enquanto anunciava os Dez Mandamentos. Mas a Revelação foi tão avassaladora que logo a seguir o povo disse a seu líder Moisés: “Fala-nos tu e te ouviremos; porém não fale D’us conosco que morreremos” (Êxodo, 20:19). E assim D’us chamou Moisés para que subisse o Monte Sinai, onde Ele lhe ensinaria toda a Lei Oral. Falava D’us a Moisés face a face, como “um homem que fala a um amigo” (Êxodo, 33:11), e por isso ele pôde entender todas as explicações sobre a Torá, bem como todos os seus segredos místicos.

D’us também transmitiu a Moisés a Torá Escrita - um livro que Ele próprio havia escrito. Não foi um produto da inspiração ou profecia Divina em Moisés; D’us ditou-lhe cada uma das letras e Moisés apenas serviu de escriba. E esse Livro da Torá foi, posteriormente, dividido em cinco unidades: Bereshit (Gênese), Shemot (Êxodo), Vayikrá (Levítico), Bamidbar (Números) e Devarim (Deuteronômio).

Durante os 40 anos que se seguiram, em sua jornada à Terra Prometida, Moisés ensinou a Torá de D’us ao povo judeu. Porém, Moisés não teve permissão de adentrar a terra que D’us prometera ao povo judeu; ele morreria antes de realizá-lo. E assim, antes de sua morte, Moisés escreveu treze pergaminhos da Torá. A Torá que temos hoje - quer em sua forma Escrita quer na Oral - originou-se do Monte Sinai e foi transmitida de geração a geração. Constitui toda a religião judaica. Mas, mais do que isso, dizem nossos sábios, constitui a base de todo o mundo.
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