Na questão quantitativa é preciso ressaltar que a comunidade recifense era basicamente constituída pelos imigrantes oriundos de Amsterdã. A adesão dos marranos de Pernambuco ou Bahia foi reduzida. Compreende-se: o judaísmo da comunidade recifense, embora praticado abertamente e sem constrangimentos, era rígido, penoso. O cripto-judaísmo era mais confortável porque feito às escondidas. Isto verificou-se não apenas naquele período mas estendeu-se ao longo dos tempos prolongando-se até hoje nos casos de cripto-judeus de Belmonte e arredores que recusam o pesado fardo do clericalismo e da ortodoxia.
O que interessa efetivamente é a extraordinária composição intelectual do grupo, se comparada com o nível do colonizador português. O Recife judeu contou com advogados, médicos, teólogos e autores. Isaac Aboab da Fonseca, além de primeiro rabino das Américas, é apontado como primeiro autor judeu do Novo Mundo pelo Mi Chamocha, prece composta para descrever as agruras da comunidade durante o sítio imposto pela frota luso-brasileira (v. abaixo). Miguel Cardoso, primeiro advogado judeu no Brasil, viveu no Recife em torno de 1645.10 Rafael Moses de Aguilar, trouxe o título de chacham, era gramático, filósofo e teólogo, deixou 22 cadernos manuscritos em espanhol, português e hebraico que voltaram do Recife para Amsterdã e posteriormente levados para Jerusalém. Sobrinho deste sábio foi o mártir Isaq de Castro Tartas que veio com o tio da Holanda e foi capturado na Bahia quando tentava reconverter marranos ao judaismo (prova de que não acorreram em massa para o Recife Judaico como se pretende). Queimado vivo pela Inquisição em Lisboa (Morashá, dezembro de 2000.
No campo da medicina, embora não tenha produzido nenhuma figura marcante, a comunidade recifense provocou o aparecimento do primeiro estudo médico sobre as doenças e remédios das terras brasileiras o Tratado Médico Dirigido ao Brasil escrito pelo grande esculápio e autor, Zacuto Lusitano (1575-1642). Redigido em Amsterdã, endereçado a seu filho, Yaqov Zacuto que vivia no Recife como negociante, inaugura a vasta bibliografia brasileira sobre doenças tropicais.
Sob o ponto de vista literário, o momento supremo da comunidade marca também o início do seu declínio. A prece-poema Mi Chamocha (Quem como Tu ?), redigida por Isaac Aboab da Fonseca durante o terrível cerco das forças luso-brasileiras em 1646 retrata a fome e o desespero de todos os habitantes do Recife. Testemunhos holandeses são ainda mais dramáticos revelando como a população foi obrigada a alimentar-se de cães e gatos. O cerco foi levantado em 22/6/1646 com a chegada de uma frota flamenga.
Selado estava o destino do enclave holandês no nordeste brasileiro e daquela experiência inédita em matéria de liberdade religiosa no Novo Mundo. Impossível mantê-lo com um oceano pelo meio sem um suporte logístico. A rendição final deu-se em 27/1/1654. Os vitoriosos permitiram o retorno de 400 judeus (este deve ter sido o número aproximado de membros da comunidade, poucos judeus arriscar-se-iam a retornar ao terror inquisitorial). O imóvel onde estava à sinagoga foi dado como butim a José Fernandes Vieira, o herói da libertação e posteriormente doado a uma ordem religiosa.
Em Setembro daquele ano chegava à Nova Amsterdã, futura Nova York, a nau Sta. Catarina trazendo da Jamaica um grupo de 23 judeus pernambucanos. A Nova Jerusalém transferiu-se ao hemisfério norte. |