Transbordou do estreito círculo dos historiadores a história da primeira comunidade assumidamente judaica no Novo Mundo.
A descoberta no Recife e cercanias de Olinda da Rua dos Judeus e, posteriormente, dos remanescentes da sinagoga Zur Israel projetou um episódio circunscrito ao âmbito dos especialistas para a esfera pública e oxigenou-o através da imprensa, literatura e cinema. Cumpre-se assim por força do próprio assunto a indispensável ligação história-historiados.
Não caberiam aqui todos os fascinantes pormenores deste episódio que converteu-se num vínculo importantíssimo entre a história do Brasil e a história do judaísmo. Mas é importante registrar que o episódio do Recife, embora efêmero (1630-1654) não aconteceu por acaso. Entrosa-se organicamente com a história dos cristãos novos no Brasil a partir do século XVI sobretudo nos capítulos referentes às Capitanias de Cima (Bahia, Pernambuco, Itamaracá e Paraíba). Como não poderia deixar de ser, entrosa-se também com a história da inquisição ibérica, com a irradiação econômica-cultural de Amsterdã e Hamburgo, desembocando na historia da América Central e do Norte através do estabelecimento no Caribe e Nova York de núcleos de judeus ibero-holandeses fugidos do Nordeste. Pode-se mesmo estabelecer um eixo Recife-Peru percorrido pelos peruleiros (cristãos novos de origem portuguesa que saídos do Brasil procuravam o Vice-Reinado andino, pelo sul, via Rio da Prata ou, segundo algumas hipóteses, pela Amazônia).
De Pernambuco para o Mundo não foi apenas o engraçado slogan de uma rádio deste estado tão orgulhoso de seu passado, exprime também a complexa articulação de fatos e processos, a partir do Recife em tempos bem anteriores ao que se convencionou chamar de globalização.
Importante registrar que a curta temporada de tolerância no Nordeste constituiu o primeiro interregno na história de uma colonização nitidamente obscurantista. Pode ter sido a inspiração para os movimentos libertários pernambucanos posteriores.
A presença holandesa no Brasil é anterior à conquista de Pernambuco. Começa em Maio de 1624 quando uma frota batava dominou as forças luso-espanholas (Portugal então pertencia a Castela) apoderando-se da cidade de Salvador e cercanias. A ocupação dura apenas um ano (até Abril de 1625) mas é suficiente para excitar as ambições holandesas. Neste período a numerosa comunidade dos cristãos novos baianos que já havia sofrido duas penosas incursões inquisitoriais (Visitações de 1591-1593 e 1618-1620) e, em grande parte, continuava perseverando na sua fé, teve o primeiro contato com a tolerância religiosa proclamada imediatamente após a vitória dos holandeses. Os judaizantes gostaram. A prova está em Lope de Vega que, para agradar à corte madrilhena, depois de expulsos os holandeses escreveu uma comédia El Brasil Restituido onde há um cristão novo que por temor ao Santo Ofício, adere aos invasores. Acusações contra os judaizantes baianos por suposta adesão ao inimigo constam de diversas denúncias eclesiásticas portuguesas.
Há indicações sobre a presença de judeus da Nação Portuguesa entre os ocupantes de Salvador que, não obstante a brevidade da ocupação, conseguiram localizar e aproximar-se dos marranos locais. Arnold Wiznitzer admite que tenham ocorrido cerimônias religiosas judaicas conjuntas levando em conta as denún-cias inquisitoriais sobre as esnogas na Bahia. No documento de capitulação os holandeses exigiram que os judeus portugueses que com eles vieram não fossem molestados. Apesar da cláusula, um membro da nação hebraica, Diogo Lopes Abrantes, foi enforcado sob a acusação de colaboração com o invasor. O castigo imposto a um capitão e cinco oficiais negros acusados do mesmo crime foi ainda pior esquartejados.
A invasão de Pernambuco foi minuciosamente planejada e melhor sucedida (14 de Fevereiro de 1630). Parte do sucesso da operação é atribuída à ajuda recebida de Antônio Dias Paparrobalos (judeu que viveu em Pernambuco e fugiu para Amsterdã) e por dois mulatos que conduziram as tropas desembarcadas a soldo de mercadores cristãos novos do Recife. |