Em suas representações simbólicas na Bíblia, para sugerir a presença de D´us, vêem-se Círculos de Luz, o arco-íris, as mãos de D´us e, freqüentemente, seus mensageiros, os anjos. Na Bíblia de Chagall o sobrenatural e o natural coexistem e se comunicam claramente através de expressivos olhares, gestos e poses.
Desde minha juventude, tive fascínio pela Bíblia. Sempre me pareceu a fonte maior de poesia de todos os tempos. A Bíblia é como um eco da natureza e tentei transmitir- lhe este segredo. Meu D´us é o D´us de Israel, o D´us de nossos ancestrais! Meu livro sagrado é a Bíblia.
Entre as primeiras manifestações de temas bíblicos em seu trabalho estão as obras sobre Adão e Eva (1910-12), Caim e Abel (1911) e também algumas com símbolos bíblicos, como a descrição do Profeta Eliahu disfarçado de mendigo, em Sobre Vitebks (1914) ou transformado em um camponês russo voando em uma carruagem em A carruagem voadora, em 1913.
Para Chagall, a Bíblia se tornou tão intrínseca à sua imaginação que emerge consciente e inconscientemente em muitos de seus trabalhos, permitindo múltiplos significados e interpretações.
Em 1941, durante a ocupação da França pela Alemanha, migrou para os Estados Unidos. Lá encontrou uma acolhida calorosa contraposta a uma cética incompreensão diante de sua obra. Como já fizera na URSS, Chagall dedicou-se a explorar as possibilidades de expressão no teatro.
Em 2 de setembro de 1944 morre Bela. Durante trinta anos foi a companheira adorada e ideal, misto de esposa e secretária, crítica de arte e escritora, mãe de sua filha e guia espiritual. Sua morte deixa o artista prostrado. Meses se passam até que retome o trabalho e ergua os olhos para o mundo que, apesar dos escombros, tenta reconstruir-se. Ao retomar os pincéis, Chagall não consegue evitar que o sofrimento da guerra e seu drama pessoal se traduzam nas imagens. A alma da cidade, de 1945, exprime a dupla angústia do pintor.
Em 1947, Chagall volta à França onde seu nome é reverenciado como um dos maiores artistas do século. A Bienal de Veneza de 1948 concede-lhe o Prêmio Internacional da Gravura.
Em 1953, em Turim, praticamente todo o mundo ocidental rende-lhe homenagem na mais ampla exposição retrospectiva, até então, dedicada a um pintor vivo. Também o amor reaparece. Em 1952, uma segunda companheira, Valentina, vem confortar seu isolamento. Com ela Chagall empreende algumas viagens. Em 1959, em visita a Paris, a presidente do Hospital Hadassah diz, instigando-o: Agora o povo judeu veio a você. Esta é a sua oportunidade de criar algo que fique para a posteridade.
Com entusiasmo, Chagall concorda em criar, na sinagoga do Hospital Hadassah, em Jerusalem, os doze vitrais representando as doze tribos de Israel. A cor dominante da janela de Reuven, o filho mais velho de Jacó, é azul, simbolizando a frutificação. Chagall baseou-se na descrição bíblica de Reuven: A arte de meu primogênito, minha vontade e os primeiros frutos de minha força... instá- vel como água. A tribo de Reuven é mencionada como uma tribo de pastores. No céu estão o sol e as águias que simbolizam a força de Reuven. A tribo de Levi tem uma janela translúcida, dourada. A santidade da Torá é guardada pela tribo de Levi. Em todas as janelas, somente os olhos e as mãos do homem. Mãos levantadas em bênção, mãos erguendo uma coroa, mãos segurando o Shofar. Velas nos dois lados das Tábuas da Lei simbolizam o serviço no Templo. Uma luz dourada irradia das velas e das tábuas. Uma cesta de frutas no centro evoca o costume de levar as primícias ao Templo. Os vitrais de Chagall são povoados por figuras que bóiam, animais, peixes, flores e muitos símbolos judaicos: Todo o tempo em que trabalhei, dizia Chagall, sentia meu pai e minha mãe olhando por sobre os meus ombros e atrás deles havia D´us. As cores principais de cada vitral foram inspiradas nas cores dourada e azul púrpura e continham outras como a esmeralda, turquesa, safira, ágata, berílio, lápis lazuli, jasper e jacinto.
Os vitrais foram exibidos primeiro em Paris, num pavilhão do Louvre especialmente construído para isso e depois no Museu de Arte Moderno de Nova York. Presente à inauguração oficial em Jerusalém, em 6 de fevereiro de 1962, Chagall disse que sentia muita alegria em ofertar seu modesto presente ao povo judeu e que sempre sonhara com a amizade e a paz entre todos os povos.
Marc Chagall é um homem em paz. Um repórter norte-americano perguntou-lhe se estava satisfeito com a vida que levava e quais eram as suas convicções: Estou satisfeito respondeu-lhe o artista. Creio primeiro em D´us, no povo judeu, na sua continuidade, na pintura e na música de Mozart. A única coisa que desejo é fazer livremente o que eu quiser. Meu trabalho é minha satisfação. Quanto ao resto, tudo continuará. Haverá outros Chagall. Sempre os há, sempre haverá cores, música, poesia. Sempre haverá artistas atraídos pela luz.
Marc Chagall faleceu em 1985, em Saint-Paul-de-Vence, França. |