HOMENS NA HISTÓRIA
MARC CHAGALL


Sinagoga do Hospital Hadassah

Com uma autobiografia íntima e sonhadora, sua arte conta histórias mágicas que exaltam a eterna floração do amor. O herói moderno que cantou a lua, a alma, a união dos amorosos, o casamento, os seres voadores, os sonhos, as lendas e os mitos do homem... Chagall é esta presença luminosa no céu da nossa época. Imigrante, judeu, poeta, pintor, homem amoroso.


Edição 32 - Abril de 2001
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Interpretar o mundo criador de Marc Chagall é atravessar um labirinto, pôr em ordem um caleidoscópio. Como Picasso, ele revolucionou profundamente toda a arte moderna.

Cada tela de Chagall conta uma história plena de poesia e de afeto. Chagall contrapõe uma religiosidade cálida e otimista a uma imensa alegria de viver.
A despeito de todas as provações que experimentou ao longo de sua existência, sua pintura permaneceu - sempre e acima de tudo - repleta de vitalidade. Este sentido máximo de comunhão com a vida decorre talvez menos de uma característica de personalidade e mais das próprias raízes nas quais se nutriu sua formação. Tais raízes mergulham no modo de ser e na visão de mundo das comunidades judaicas da Europa Oriental do século XIX, em particular no movimento espiritual nelas gerado, o chassidismo, cujos princípios afirmam a Presença Divina em todas as coisas, apesar de D’us estar acima de todas as coisas, e o constante diálogo entre o homem e seu Criador.

Um diálogo “sui generis” feito de amor e fé absoluta, que não comporta a inquietação racional ou a lógica. Como D’us existe, tudo é possível. O chassidismo, portanto, pressupõe a alteração concreta da realidade diária por meio da oração, outorgando a quem tem fé inabalável a capacidade bíblica de “mover montanhas”, ou seja, de operar milagres na própria vida e na dos demais.

A pintura de Chagall exprime esses fundamentos. Contém a certeza religiosa de que, apesar das tragédias humanas, a vida e o amor são dádivas de D’us e assim devem ser usufruídos. “Haverá sempre crianças que amarão a pureza, apesar do inferno criado pelos homens”, disse o artista, certa vez. E jamais mudou sua perspectiva. Através de meio século de ininterrupta produção, Chagall permaneceu essencialmente um sonhador, lírico, mágico e ingênuo, que usa o pincel para materializar a bondade e a inocência em cores maravilhosas.

Marc Chagall nasceu em Vitebsk, Rússia, em 1887, filho de pais devotos, modestos e de boa paz. O cotidiano fluía simples no gueto judaico. O pai, judeu ortodoxo, tinha uma banca de venda de arenques no mercado. O trabalho alternava-se com a leitura diária dos livros sagrados e a freqüência assídua à sinagoga. Em casa, a intimidade era doce, calma, desprovida de sofisticação, mas profundamente espiritual. A família atribuía significados simbólicos tanto ao trabalho quanto à diversão. Completava o ambiente familiar um avô excêntrico que se isolava no sótão para tocar seu violino em sossego. As velas acesas e a mesa posta às sextas-feiras saudavam o Shabat.

O talento de Chagall revelou-se em suas primeiras pinturas, nas quais representou as principais etapas da vida de um judeu devoto: seu nascimento, casamento e morte. Como pano de fundo de todas essas cenas, sua cidade natal, Vitebsk.

À medida que o jovem Marc cresceu e seu talento desabrochou, a cidade de Vitebsk tornou-se demasiado pequena para seu aprendizado artístico. Era preciso partir, mas para onde? Para São Petersburgo, certamente. Lá, graças a um subsídio mensal de dez rublos, Chagall pôde estudar na Academia de Belas Artes.

O advogado e deputado liberal Maxim Vinaver tornou-se seu patrono e estimulou-o a imigrar para a França, com a promessa de lhe enviar a soma de 125 francos por mês, como provisão para suas necessidades imediatas.

O verão de 1910 já estava no fim quando Chagall chegou a Paris. O impacto foi imenso e Chagall preconizou: “Aqui nasci pela segunda vez. Suas ruas, seus mercados são as academias de minha alma de pintor. Vivo imerso num banho colorido, encontrei aquela luz - aquela liberdade que não vi em parte alguma. Tudo me agrada”.
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