<< Voltar Página
Fui aluna de Língua Portuguesa da Prof.a. Norma Goldstein, na USP, e, com o passar do tempo, ela se tornou minha amiga. Numa sexta-feira, recebi um telefonema dela. Queria contar-me sobre a rea-lização de um congresso, dedicado a estudos de textos medievais em português, organizado pela área de Filologia e Língua Portuguesa da USP, de cuja comissão organiza-dora ela fazia parte. Havia convidados de vários países. Os colegas brasileiros procuravam mostrar-lhes a cidade e levá-los a lugares de seu interesse. Minha amiga indagou do interesse de cada um e, sabendo que a participante da Inglaterra era judia, perguntou se ela gostaria de ir, naquela noite, a um serviço religioso numa sinagoga paulista. “Sim, eu gostaria muito”, foi a resposta.

Era essa a razão do telefonema...

“Ariella, sei que você costuma ir à sinagoga, gostaria que hoje fosse e fizesse isso em companhia de uma de nossas convidadas. Ela está hospedada num flat pertinho da sua casa, você poderia?”

Concordei imediatamente e marcamos o horário do encontro.

Na hora marcada cheguei ao flat; encontrei a professora inglesa esperando por mim na recepção. Olhos claros, cabelos brancos, altura mediana, magra e rápida. Disse seu nome, nós nos cumprimentamos com um aperto de mão e saímos caminhando pela Avenida Rebouças, em direção à sinagoga da CIP. A calçada era cheia de gente, os pontos de ônibus lotados, era difícil avançar, com certa rapidez, sem nos perdermos uma da outra..... Eu lhe perguntei se podia segurá-la pela mão, para facilitar... Poderíamos ter ido de táxi, mas, desde criança, tenho o hábito de ir a pé à sinagoga; e a distância era relativamente curta.

Assim, de mãos dadas, chegamos até a Rua Antônio Carlos.

Nessa época, quem era sócio da CIP entrava direto, mostrando a carteirinha, enquanto os não sócios faziam uma fila para identificar-se. Eu tinha minha carteirinha na mão e, para agilizar, coloquei na dela a carteirinha de minha sogra dizendo, “Vamos fazer de conta que você é minha irmã.” E assim entramos diretamente, sem fila.

Quando passamos diante da mesa onde costumam ficar os livros de reza, peguei dois, virei-me para entregar um deles a minha companheira e vi que os olhos dela estavam vermelhos e úmidos....

Sentamos, ela ficou longo tempo segurando o livro fechado à sua frente e bem depois começou a observar o que tinha em volta.

Terminada a função, desejei-lhe “Shabat Shalom,” e ela desejou o mesmo para mim.

Saímos, a rua já estava escura, fizemos outro caminho para retornar, mais longo, mas menos lotado e sem pontos de ônibus. A calçada era irregular, nossa convidada tropeçou e, para que ela não se machucasse, sem perguntar tratei de dar-lhe o braço, como fazia com a minha mãe, e assim fomos caminhando... Comentei sobre a escuridão, os buracos nas calçadas, ela falava pouco. Ao chegar de volta ao flat onde estava hospedada, disse não saber o que dizer para agradecer... Disse também que nunca, na vida dela, tinha tido a oportunidade de entrar numa sinagoga, não tinha com quem ir... Ninguém, até então, a tinha tratado como irmã.

Estava emocionada e, eu também, me emocionei. Abracei-a e desejei-lhe boa viagem, pois na manhã seguinte ela retornaria à Inglaterra.

Após alguns dias, a minha amiga Norma me ligou novamente. A visitante tinha enviado carta de agradecimento pela acolhida dos colegas brasileiros e pelo “anjo enviado a ela naquela sexta-feira”.

Fiquei sabendo então que minha “irmã” era uma daquelas crianças judias alemãs, adotadas por famílias protestantes da Inglaterra em 1939.

Foi justamente sobre essas crianças, que foi publicado um artigo na MORASHÁ n.º 31.
<< Voltar Página

1 2 3