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Em setembro de 1939, a Segunda Guerra Mundial eclodiu, a creche fechou e as crianças foram evacuadas, terminando assim a minha carreira como babá. Voltei para a minha família adotiva, que pensou ter encontrado uma ajudante. O uniforme e a disciplina quase militar me lembravam a Alemanha. Eu continuava, no entanto, solitária.

Sonhadora, tinha uma grande paixão: a leitura. Vinte e cinco anos depois, ainda me lembro de quantas vezes fui pega lendo os livros, ao invés de espaná-los. Eu não tinha grandes expectativas, além de conseguir dar alguma escapada para Londres para rever velhos amigos e parentes.

Três anos mais tarde, consegui romper com a minha família adotiva. Apesar de pouco eficiente, eu era uma ajudante barata, por isso a ruptura não foi fácil. Morei em vários lugares. O escritório alemão-austríaco de comércio exterior ajudou-me a encontrar um emprego. Comecei a trabalhar em uma fábrica de lentes e, até hoje, lembro-me da satisfação ao receber o meu primeiro salário. Eu adorava o trabalho e os colegas londrinos, dois dos quais eram também refugiados judeus.

Nós três decidimos, então, que a óptica seria o nosso futuro e nos inscrevemos na North-Western Polytechnic, pois, naquela época, para se tornar oculista era preciso fazer um curso de três anos ministrado aos domingos. Mas como eu não tinha concluído meus estudos, três noites por semana fazia um outro curso para cumprir os pré-requisitos.

Trabalhava durante o dia e estudava à noite e, portanto, não tinha uma vida social muito intensa. Tornei-me membro da Associação Britânica de Óptica. Ao terminar o curso, consegui emprego como oculista em uma empresa tradicional da Rua Regent e, apesar do meu sucesso profissional, minha vida social não se modificou muito. Isto me levou a pensar na possibilidade de tentar a sorte no Novo Mundo.

Em 1947, parti para os Estados Unidos, onde durante dois anos trabalhei em um consultório oftalmológico. Foi lá que conheci um jovem fazendeiro do Brasil com o qual me casei. De origem alemã, ele possuía uma fazenda de café no interior do Paraná, para a qual nos mudamos.

A Plantação Paraná era uma companhia britânica que comprava terras do governo brasileiro por um bom preço e, em contrapartida, deveria construir uma ferrovia ligando São Paulo ao interior do Estado. Durante os anos 30, a Companhia comprou o material necessário na Alemanha. Para obter recursos, vendia terras aos que precisavam fugir dos alemães.

Entre os primeiros refugiados judeus alemães lá assentados havia médicos, advogados, comerciantes, banqueiros, exceto fazendeiros. Com raras exceções, não possuíam dinheiro ou conhecimentos agrícolas. Viviam do que plantavam e, quando tinham algum gado, conseguiam produzir leite e manteiga. Em pequenas clareiras, cercadas por florestas, construíram casas simples de madeira rodeadas por canteiros de flores.

Com o decorrer dos anos, a floresta foi cedendo espaço às plantações de café. Como os imigrantes-lavradores não tinham dinheiro, os grandes proprietários faziam com eles contratos de cinco a seis anos. Estes eram responsáveis pelo corte e queimada da madeira, limpeza da área e plantio do café. Entre as fileiras dos cafezais, podiam plantar feijão, milho e arroz para seu consumo. Foi um período de muita luta pela sobrevivência e, freqüentemente, a geada destruía a colheita.

Cheguei ao Brasil com meu marido em 1949 e jamais me considerei uma estrangeira. A fazenda estava localizada a cerca de vinte quilômetros da pequena cidade de Rolândia, mas não tínhamos carro. A estrada era precária e os cavalos eram o melhor meio de transporte. Não havia energia elétrica, água encanada, telefone nem rádio. Mas me adaptei e apeguei a esse estilo de vida. Finalmente, me sentia em casa.

Vizinhos e amigos tornavam a vida agradável e sempre que necessário conseguíamos ajuda. Criamos quatro lindos filhos e a nossa estabilidade econômica veio com o tempo. Atualmente usufruímos de todo o conforto da vida moderna.

Meu marido faleceu em 1973. Enfrentei outras perdas, mas sou uma avó orgulhosa de cinco netos. Assumi a fazenda e estou pronta a transferi-la para meu filho. Não se trata mais de uma plantação de café, apenas, pois plantamos também soja, milho, cana-de-açúcar e trigo com novas tecnologias.

Vim de muito longe e percorri um longo caminho desde a minha infância em Berlim. Passei a maior parte da minha vida no Brasil e sou muito grata ao que este país me deu. Não poderia esperar por nada a mais, nem desejar nada melhor.

Uma Criança do Kindertransport

Um número recente desta revista, li um artigo que me remeteu a uma experiência pessoal, vivida há cerca de três anos.
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