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Um trem para a vida
Um artigo publicado na edição 31 da Revista Morashá, intitulado O trem das crianças, motivou alguns leitores a relatarem através de cartas as suas experiências neste episódio da história. Esta carta de autoria da Sra. Inge Marion Rosenthal foi enviada para a Sra. Bianca Gordon, membro da Associação dos judeus refugiados e relata a vivência de uma das crianças do trem.
| Edição 32 - Abril de 2001 |
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Quando abri a carta enviada da Inglaterra e vi o recorte de jornal sobre a comemoração do 50º aniversário do Kindertransport, foram passando imagens pela minha cabeça como se fosse um filme sendo rebobinado. Eu voltava no tempo rapidamente e, quando as cenas pararam de se movimentar, as imagens surgiram nítidas.
Diante dos meus olhos, como se fosse hoje, vejo meu pai me levando à estação de trem, na Alemanha. Minha mãe, incapaz de suportar o último adeus, permaneceu mais afastada. Mais tarde eu soube que apenas um familiar tinha permissão para acompanhar a criança até o trem.
Estávamos em Berlim, em março de 1939; eu tinha então 15 anos. Ao lado da expectativa por causa da viagem, havia a tristeza por deixar meus pais, os amigos íntimos e pelo medo de abandonar o conforto e a segurança que normalmente reinam entre as quatro paredes de um lar. Em outras palavras, a sensação de ver desmoronar tudo o que compõe a vida cotidiana; além de sentir o desespero dos meus pais, aos quais jamais vi novamente.
Leibesvisitation, uma palavra dura ouvida antes do embarque no navio em Hamburgo, era a última impressão que levávamos de uma Alemanha que planejava, então, a destruição de todos os que amávamos e que estávamos deixando para trás. Uma Alemanha que nos negou o que era nosso: nosso patrimônio hereditário.
Durante a viagem, havia muita expectativa quanto ao desembarque. Para muitos, era a primeira viagem fora da Alemanha. Ao chegarmos em Southampton e embarcarmos no trem para Londres, inúmeras mulheres distribuíam caixas com doces e sanduíches para todas as crianças. Foi assim que terminou a minha infância.
Quando chegamos na estação de Waterloo, as crianças sentaram-se em bancos de madeira. Acho que, para muitas, foi a primeira vez que um intenso sentimento de perda as invadiu. As menores choravam amargamente procurando e chamando por suas mães.
Cada um dos passageiros do Kindertransport era chamado pelo nome e encaminhado para aquele que seria o seu padrinho, aquele que salvara essa criança da morte. Lado a lado caminharam, a criança levando consigo o desejo de encontrar um bom relacionamento familiar.
Naquele dia, minha madrinha me cumprimentou sem querer interferir ou se impor. Caminhamos, ambas inseguras, com destino a um subúrbio de Londres. O que um adulto falaria com uma criança tímida e amedrontada pelas circunstâncias? Eu até que tinha mais sorte do que muitas outras, pois a minha guardiã falava um pouco de alemão.
Eu sempre serei grata ao casal escocês que salvou a minha vida. Em 1939, quando quase todas as portas do mundo estavam fechadas para os judeus, esta ainda estava aberta para mim. No entanto, não se pode dizer que havia muito apoio psicológico e compreensão com as crianças recém-chegadas que, de uma hora para outra, tinham que enfrentar, sozinhas, um mundo novo.
A primeira decepção que enfrentei foi quando percebi que não havia vaga na escola para mim. Fizeram-me sentir culpada, pois era mais velha do que o esperado. Em pouco tempo, eu estava em uma creche sendo treinada para trabalhar como pajem de crianças. Ninguém me ensinou a lavar roupas e, a cada manhã, eu as esfregava até que meus dedos estivessem em carne viva. Meus colegas me acusavam de roubar comida, e estávamos sempre com fome. Às vezes eu pensava que, se meu inglês fosse melhor, talvez tivesse conseguido acalmar as crianças na hora do descanso. |
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