JUDEUS NA AMÉRICA


Em 1650, os primeiros 23 judeus a chegarem na América do Norte provenientes do Brasil desembarcaram em Nova Amsterdã.

A vida dos judeus nos Estados Unidos, desde as primeiras imigrações, foi marcada pela tolerância religiosa, ainda que sem o mesmo reconhecimento a seus direitos civis. Apesar de entremeada por episódios de anti-semitismo, diferencia-se bastante do ciclo de violência e perseguições do Velho Mundo.


Edição 32 - Abril de 2001
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A descoberta da América, em 1492, no mesmo ano em que os reis católicos Fernando e Isabel expulsaram os judeus da Espanha, pode ser considerada uma das coincidências históricas que marcaram de forma definitiva a trajetória do povo judeu no mundo. Coincidência maior, ou não, o édito de expulsão foi anunciado no mesmo dia em que Cristóvão Colombo recebeu autorização para equipar sua frota e preparar a viagem, financiada em parte pelas fortunas de judeus forçados à conversão. Historiadores afirmam, inclusive, que muitos conversos - ou marranos, como se tornaram conhecidos - integraram a tripulação de Colombo.

O chamado Novo Mundo, ao longo de décadas, tornou-se um refúgio e uma alternativa atraente para centenas de judeus que preferiam enfrentar oceanos revoltos, tempestades em alto mar, selvas e aborígenes desconhecidos, para escapar da Inquisição. Entretanto, a presença espanhola e, posteriormente portuguesa, no novo continente, logo mostrou aos exilados que os braços dos inquisidores eram mais longos e ameaçadores do que os mares. Os judeus e os marranos, no entanto, encontraram um oásis de tolerância na colônia holandesa de Recife onde viveram tranquilamente até 1654, quando a região foi reconquistada pelos portugueses que, juntamente com suas tropas e armas, trouxeram consigo os tribunais do Santo Ofício.

Este fato acabou sendo um dos principais responsáveis pelo início da imigração judaica para o que viria a ser os Estados Unidos. Apesar de haver relatos anteriores sobre a chegada de judeus ao Hemisfério Norte, a imigração de maior significado histórico começou em 1654, quando 24 judeus fugitivos de Recife - a maioria de origem sefaradita - embarcaram no St. Charles e navegaram rumo ao norte, deixando para trás as águas azuis do Caribe, em direção ao cinzento Atlântico. No início de setembro daquele ano, sua busca foi recompensada quando chegaram à Ilha de Manhattan, aportando na colônia holandesa de Nova Amsterdã, um entreposto comercial da Companhia das Índias Ocidentais no Novo Mundo.

Apesar da resistência do governador calvinista da colônia, Peter Stuyvesant, que se opunha à permanência dos fugitivos, pressões feitas pelas autoridades da Companhia das Índias Ocidentais - na qual havia judeus influentes - decidiram que eles poderiam ficar, salientando “que não deveriam tornar-se uma carga para a Companhia”, ou seja, deveriam ser responsáveis pelo seu próprio sustento ou contar com a ajuda de outros judeus já ali assentados. Entre estes estava o comerciante Jacob Barsimson, um jovem ashquenazita oriundo da Europa Central, que havia chegado da Holanda três semanas antes, e alguns outros.

Assim estabeleceu-se o núcleo que deu origem à primeira comunidade judaica da América do Norte. Em março de 1655, mais cinco famílias e três homens solteiros chegaram à Nova Amsterdã diretamente da Holanda. Em melhor situação econômica do que os foragidos de Recife, vieram ao Novo Mundo dispostos a organizar uma comunidade e oficiar os serviços religiosos em hebraico, de acordo com as tradições judaicas. Trabalhando como açougueiros, ferreiros, importadores ou vendedores ambulantes, lutavam unidos para garantir sua sobrevivência na nova terra.

Desde o início, preocuparam-se em criar mecanismos para garantir assistência aos carentes e aos órfãos, além de providenciar um cemitério para serem enterrados de acordo com suas leis religiosas. Naquela época, no entanto, a Companhia das Índias Ocidentais e o governo colonial enfatizaram que, apesar de autorizarem a permanência e a entrada de mais judeus na região e permitirem que continuassem seguindo sua religião, estes não poderiam construir sinagogas.
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