UMA HISTÓRIA DE LUCROS E VÍTIMAS


Foto Ilustrativa

Era um simples pedaço de papelão perfurados de cerca de treze centímetros de comprimento e oito centímetros de largura. Mas desde a publicação nesta semana do livro IBM e o Holocausto, estes cartões processados pelas máquinas Holleriths-os precursores dos nossos computadores-ganharam um significado sinistro.


Edição 32 - Abril de 2001
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Mas desde a publicação nesta semana do livro IBM e o Holocausto, do Americano Edwin Black, lançado simultaneamente em vários países e no Brasil pela editora Campus, estes cartões processados pelas máquinas Holleriths-os precursores dos nossos computadores-ganharam um significado sinistro.

No livro, Black um americano filho de judeus que sobreviveram a perseguição nazista, mostra como os cartões produzidos e processados pela Dehomag (a filial alemã da IBM) que circularam aos milhões pelas mãos de burocratas, transformando-se num elemento crucial na identificação, localização, perseguição, prisão e – na última fase do processo- extermínio de milhões de judeus e de outras vítimas de Hitler na Europa ocupada pelos nazistas.

Mais importante, o livro recorre a milhares de documentos para desmontar a história oficial assumida pela IBM que, em nota oficial, tenta limitar sua responsabilidade com a frase: “Como milhares de empresas estrangeiras que tinham negócios na Alemanha da época, a Dehomag (filial Alemã) passou a ser controlada pelas autoridades nazistas antes e durante a Segunda Guerra”.
Campos

Com a ajuda de mais de cem colaboradores, muitos deles voluntários - espalhados por vários países, Black reuniu milhares de fragmentos de informação para montar um vasto quebra-cabeças. A imagem final mostra que, se a IBM americana e seu presidente Thomas J. Watson não tinha conhecimento nem tiveram participação direta no que ocorreu nos campos de extermínio a partir de 1942, participaram juntamente com suas filiais num esforço que daria à perseguição e às atrocidades pelos nazistas uma eficiência nunca vista. Sua empresa não vendia apenas máquinas, vendia soluções concebidas por seus técnicos para o problema de cada “cliente”.

Em dezembro de 1944, em campos de concentração como o de Bergen-Belsen, os prisioneiros eram identificados por cartões Holleriths. Os furos na terceira e na quarta coluna definiam dezesseis categorias de prisioneiros: o Orifício 12 significava cigano, o 3 significava homossexual e o 8 judeu. A coluna 34 trazia a razão do envio para o campo: o código 2 indicava que ele continuaria trabalhando, o 6 “tratamento especial” e um eufemismo para extermínio.

Estatísticas

Como ao longo de doze anos, os nazistas rastrearam em meio aos milhões de habitantes da Alemanha e da Europa exatamente aqueles que pretendiam destruir? Ou que estava ocorrendo em Bergen-Belsen, Auschwitz, Treblin-ka e outros campos era apenas a última etapa de um processo iniciado anos antes e no qual se combinaram o zelo alemão pelas estatísticas, as máquinas da IBM, e as idéias racistas de Hitler.

Quando este, recém-chegado ao poder, encomenda à filial de Berlim seu primeiro recenseamento do povo alemão, Watson o comandante do império IBM, acolhe o negócio em Nova Iorque como uma grande oportunidade. “É o maior trabalho já prestado por qualquer agência da IBM”, dizem os representantes da Dehomag. Os investimentos da matriz na filial são multiplicados por quinze. A Dehomag era responsável por mais da metade dos lucros obtidos com as mais de setenta subsidiárias fora dos EUA. Para processar os questio-nários preenchidos à mão por meio de milhões de recenseadores, a fi-lial alemã da IBM contratou e treinou novecentas pessoas, que trabalhavam num andar abaixo do escritório Estatístico Prussiano. Um lance de escada separava a empresa privada do estado alemão.
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