Palavras proferidas pelo Rabino Y. David Weitman na noite em homenagem ao governador organizada pela FISESP e CONIB na Hebraica.

A oração pelo bem-estar dos governantes que comumente fazemos nas sinagogas começa com o versículo dos Salmos:1 “Aquele que concede salvação aos Reis e Aquele que livra David, Seu servo, da espada maléfica”.

Por que mencionamos justamente o nome do Rei David? Dizem os nossos sábios que o Rei David representa o exemplo, o paradigma do líder. O Rei David, apesar de ter chegado ao palácio, nunca se esqueceu do seu cajado e de sua mochila, companheiros da época em que era pastor. Ele se preocupava com o bem-estar de todos os cidadãos do reino. Era um homem dedicado, devoto, e se interessava genuinamente por cada um.

Um dos nomes bíblicos do Rei David é “Adino Aetsni”2 , que significa literalmente “aquele homem tolerante, flexível, de madeira”. Perguntam os nossos sábios no Talmude: sabemos que a madeira não é flexível; como então pode ser chamado de “uma madeira flexível” se ela é rígida? Responde o Talmude: quando estava na Casa de Estudos, o Rei era um homem nobre, tolerante, flexível e tranqüilo, mas quando saía à luta pelos ideais judaicos ele era forte e rígido como a madeira. Daí os dois apelidos para a mesma pessoa.

No nosso caso, o governador Mário Covas era, sem dúvida, possuidor de nítidas qualidades de liderança. Apesar de ter ingressado na política bastante jovem, sabemos que ele era diferente do padrão usual dos homens públicos que o país tão bem conhece. Mário Covas era um homem íntegro, honesto e comprometido com ideais. Por um lado, era muito tolerante, nobre e agradável, usando de cortesia mesmo com os seus adversários. Quando, porém, Mário Covas se lançava na luta pelos ideais que o norteavam, ele era irredutível. Era um oposicionista firme, um lutador que enfrentava os obstáculos com seu estilo característico. Não restam dúvida que ele possuía, de fato, todas as qualidades necessárias para ser um líder autêntico.

O Rebe de Lubavitch, líder mundial judaico, ensina o seguinte: “O papel do governo é equilibrar o bem da comunidade, da sociedade, com o bem e a liberdade individual. Isto só é possível quando a sociedade é governada por princípios de moralidade, justiça e Lei Divina”. Mário Covas tentou transportar esta visão para a prática, soube conciliar política e ética. Porque o verdadeiro líder não busca apenas a obtenção de adeptos e simpatizantes, mas, principalmente, deseja forjar outros lideres. O líder não quer ofuscar ninguém com o seu brilhantismo e sim permitir que a luz própria de cada um ilumine e reflita. Foi exatamente isso que ele fez: serviu à pátria e criou novos líderes, preparando uma nova geração de políticos que tentará emular a sua maneira de ser e agir, de integridade e dedicação a todos os cidadãos. Como dizem os nossos Sábios, “Liderança não é poder e nem dominância. É servidão”.

Principalmente, gostaria ressaltar neste momento a sua amizade especial com a comunidade judaica. Acabamos de comemorar a festa de Purim e Purim não apenas lembra aos judeus a derrota de Haman, o sinistro anti-semita, mas também nos traz à memória uma época maravilhosa em que o povo de Israel vivia sob o reinado persa, mais especificamente o Rei Ciro. Ele era um excelente governante para o povo de Israel, ajudando-os, incentivando-os a retornar à sua terra, para reconstruir as muralhas de Jerusalém. As comunidades floresceram durante seu reinado. Ele era louvado pelos nossos sábios.

Da mesma forma, Mário Covas, um grande amigo das inúmeras comunidades radicadas no Brasil, sempre esteve muito próximo à comunidade judaica de S. Paulo. Participou, incentivou, sempre que convidado, compareceu. Nunca deixou de tomar parte em nossas festividades e em nossos momentos solenes. Certa vez, me recordo perfeitamente, aqui mesmo no salão nobre da Hebraica, por ocasião de um grande evento comunitário, Mario Covas citou, no meio de seu discurso, Rabi Isaac Aboab da Fonseca, o primeiro rabino das Américas. Vemos aqui alguém profundamente interessado, que estuda e conhece o Povo do Livro. Mário Covas será lembrado como um grande amigo desta comunidade. Nos seus governos floresceram incontáveis instituições judaicas.

Neste momento, pedimos à família que se console com os feitos e conquistas de um homem que dedicou a sua vida ao bem-estar dos cidadãos. Quando da inauguração da estação ferroviária ao lado da Hebraica (que ele mesmo denominou “Hebraica-Rebouças”) tive a oportunidade de parabenizá-lo e disse, naquela ocasião, que ele estava facilitando a vida terrena dos cidadãos graças às várias linhas de trens e estações que estava inaugurando. Este homem, que tanto fez para facilitar a vida terrestre do povo, pode esperar a tranqüilidade na vida celestial.

Terminamos com as palavras do profeta Jeremias:3 “Exijam e peçam pela paz na cidade onde Eu vos exilei; rezem por ela porque havendo paz nela, vocês terão paz”. Amén.