Maimônides (1135-1204)
A maior obra filosófica escrita por Rabi Moses ben Maimon, também conhecido como Maimô-nides, é o Guia dos Perplexos.
Esta obra foi feita para conciliar algumas diferenças entre revelação e filosofia e para ser uma espécie de guia àqueles que têm dúvidas sobre a filosofia ou a religião devido à aparente contradição entre ambas. Maimônides não considera que uma seja contrária à outra. Filosofia é o meio através do qual o indivíduo compreende a Revelação. A fé religiosa é uma forma de sabedoria. A filosofia é um elemento central dentro da própria religião. Desta forma aprender a filosofia é uma tarefa religiosa e a filosofia pavimenta o caminho para D'us.
Para Maimônides, os milagres foram predeterminados no momento da Criação e desta forma não constituem uma mudança na vontade de D'us. Em sua opinião, são necessários para sustentar a autoridade da Revelação perante o povo. Maimônides é muito cauteloso em não definir o milagre como uma anulação das Leis Divinas sobre a natureza.
Ele também é cuidadoso ao evitar que a afirmação da atividade sobrenatural de D'us seja utilizada como meio de interrupção da ordem natural da criação. Em seu comentário da Mishná, Maimônides ensina que os milagres foram inseridos na natureza no momento em que D'us criou o mundo.
Em seu Guia dos Perplexos, Maimônides não parece mais se ater a esta posição extrema que excluiria qualquer interferência de D'us no curso da natureza. Ele admite a possível suspensão temporária da ordem natural das coisas como parte do plano Divino. Muitas narrativas milagrosas, especialmente as mais extraordinárias, como a de Bilaam falando com um asno ou a fala da serpente no Jardim de Éden, são explicadas por Maimônides alegoricamente ou através de interpretações de histórias como parte da visão profética. Quando um profeta descreve a ruína de um reinado ou a destruição de uma grande nação com expressões como "as estrelas caíram" ou "a terra está perdida e treme", utiliza metáforas para se referir aos derrotados. Enquanto os vitoriosos aproveitam a Luz e a alegria, os derrotados estão na escuridão.
Para explicar a linguagem figurada da Bíblia, em seu Guia dos Perplexos, Maimônides cita o Salmo 77, cap. 17-19, referindo-se à morte dos egípcios no Mar Vermelho: "As águas viram-nos e ficaram com medo, as profundezas tremeram... a terra tremeu e estava confusa." Maimônides afirma que um milagre não pode provar aquilo que é impossível. Serve apenas para confirmar o que é possível.
Maimônides, pois, explica que realidade deriva da Razão Divina e que nem tudo que é imaginável é necessariamente possível. Ele eleva os milagres de Moshé acima de todos os outros. A verdade metafísica vem de momentâneos flashes de iluminação, algo comum na filosofia e na profecia.
Os profetas costumavam usar parábolas e metáforas porque o indivíduo comum não consegue compreender a verdade em sua forma pura. Somente o filósofo é capaz de fazê-lo, já que o conhecimento metafísico exige a perfeição do intelecto e a purificação da personalidade humana.
Gershon ben Levi (1288-1344)
Para explicar a natureza dos milagres, Rabi Gershon ben Levi (Gershonides) estudou os milagres bíblicos, concluindo que podem ser classificados em aqueles que envolvem mudança na matéria e outros em que a matéria permanece a mesma. Como exemplo dos primeiros, há a transformação do bastão de Moshé em serpente, e do rio Nilo em sangue. E como exemplo dos segundos há a mão de Moshé quando se torna leprosa. Indo mais além, divide os milagres entre aqueles em que o profeta foi avisado antes (Dez Pragas do Egito) e aqueles nos quais não houve aviso prévio. Sua análise dos milagres mostra que todos foram realizados ou relacionados com os profeta e que foram feitos com bom propósito. Segundo Rabi Gershon, como os milagres não parecem ser acidentais, devem ter como autores alguém que tem conhecimento espiritual de D'us, a chamada Inteligência Divina ou o próprio profeta). Conclui que o Autor de milagres é o mesmo que o Inspirador dos profetas, cujo Intelecto tem como conteúdo o sistema da criação unificado como uma idéia abstrata (por exemplo, o Intelecto Ativo). Assim, para Gershon ben Levi, o profeta sabe dos milagres porque o Intelecto Ativo, seu Autor, é também a Causa da inspiração profética. |