E, apesar disso, os muito prováveis assassinos ficaram petrificados, pois não contavam encontrar os judeus de frente, encarando-os clara e diretamente. Aparentemente haviam planejado infiltrar-se sorrateiramente vindos de trás, arremessar sua armas mortais e escapar pelas sombras da noite de onde haviam surgido.
Mas os judeus franceses também permaneceram, imóveis, incrédulos, petrificados, e os simpatizantes nazistas rapidamente mudaram de idéia. Com as granadas ainda nas mãos, retiraram-se da sinagoga, excetuando-se um homem que arremessou a sua, que explodiu ao chocar-se contra a parede da sinagoga, sem no entanto causar vítimas.
Tudo não passou de um momento. Drenados de pavor, ainda estarrecidos com o que se passara, os membros da congregação viraram-se de volta, desta vez com o olhar dirigido para a Arca Santa, e se sentaram. Alguns soluçavam, outros suavam frio e outros estavam imóveis como uma estátua.
O Rabino Kaplan voltou a seu posto, no púlpito. Sua voz, na qual se percebia ligeiro tremor, dizia: "Meus irmãos, acabamos de presenciar um milagre. Estamos salvos, pois no momento de grave perigo voltamo-nos em direção à porta de entrada, para acolher a chegada do Shabat, a Noiva de Israel. Os homens malignos se foram, mas a Noiva permanece conosco. Saudêmo-la!" Conseguindo recuperar a voz e o fôlego, a congregação entoou o verso final da oração: "Vem, ó Noiva, juntos damos as boas vindas ao Shabat".
Nunca saberemos ao certo o que se passou na cabeça dos quase-assassinos naquela fração de segundo em que a pequena congregação de judeus franceses os encarava, como um grupo, ao ponto de os assustar e demover de seus intentos malignos. Em Lyon, hoje em dia, os judeus mais idosos ainda comentam o milagre do "Lechá Dodi". |