KINDERTRANSPORT


Deborah Oppenheimer

O Holocausto gerou milhares de livros, filmes, palestras, seminários, congressos e vai gerar ainda outro tanto sem que o tema jamais se esgote. Apesar dos 60 anos passados desde a Segunda Guerra Mundial, ainda não se apagaram as lembranças das atrocidades cometidas neste período e o tema continua despertando interesses.


Edição 31 - Dezembro de 2000
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Revista Morashá
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O documentário mais recente sobre o Holocausto, "Into the Arms of Strangers: Stories of the Kindertransport" (ainda sem título em português), relata a saga de dez mil crianças judias. Lançado em setembro último nos Estados Unidos, o filme foi premiado no Festival de Cinema de Londres, em novembro, em uma cerimônia que contou com a presença do príncipe Charles. O documentário começou a ser produzido há seis anos, envolvendo filhos de passageiros do Kindertransport.

Deborah Oppenheimer, produtora de televisão que vive em Nova York, é uma dessas pessoas. Sua mãe, Silvia Avramovici, tinha apenas 11 anos quando seus pais a colocaram em um trem que ia da Alemanha para a Grã-Bretanha, com a promessa cheia de lágrimas de que logo a família voltaria a se reunir. Silvia nunca mais viu seus pais, assim como 90 % das crianças que estavam no Kindertransport.

Desde pequena, Deborah aprendeu a não fazer perguntas à mãe sobre seu passado. Quando tentava abordar o assunto, a mãe começava a chorar, encerrando a conversa. "Quando ela morreu, em 1993, decidi tentar descobrir tudo que fosse possível sobre as raízes da minha mãe", conta a produtora de televisão. A primeira descoberta foram cartas escondidas numa gaveta, escritas pelos pais de sua mãe antes de serem deportados para um campo de concentração. A segunda ocorreu em 1995, num jantar em Los Angeles, onde passou um clipe de 4 minutos sobre o Kindertransport. Um contato levou a outro, incluindo a descoberta de duas mulheres que haviam conhecido e viveram com Silvia Avramovici na Inglaterra durante a guerra. Deborah passou meses mergulhada em velhas cartas e diários, além de longas horas ao telefone falando com o Centro de Sobreviventes do Kindertransport, na Inglaterra, Israel e Estados Unidos.

No início da pesquisa, as pessoas tinham certa resistência a responder. Para os sobreviventes desse episódio, eles haviam sofrido tão pouco comparando-se com os que haviam passado pelos campos de concentração, que não consideravam apropriado falar sobre a própria experiência. Segundo Deborah, "eles não aceitavam a expressão 'sobreviventes do Holocausto', mas se consideravam 'evacuados' da barbárie". A maioria dos sobreviventes criaram famílias, são avós e se estabeleceram profis-sionalmente. Mas a recordação dessa passagem continua muito viva em sua lembrança.

Em 1998, vendo o filme "The Long Way Home", dirigido por Mark Harris que havia ganho o Oscar de melhor documentário no ano anterior, Deborah decidiu que Harris escreveria e dirigiria o filme sobre o kindertransport. Foram selecionados 16 "evacuados " para aparecer no documentário de 117 minutos.

Em 1939, Lory Cahn, 14 anos, foi colocada em um trem do Kindertransport a caminho da Grã-Bretanha. Seu pai, um veterano de guerra, inconformado com a separação, puxou a filha pela janela tirando-a do trem em movimento. Lory sobreviveu a dois campos de concentração. Seus pais não tiveram a mesma sorte. Hedy Epstein não conseguia entender por que seus pais queriam separar-se dela, mandando-a a uma terra estranha. "Eu os acusei de quererem se livrar de mim, de me ver longe deles", relembra.

Ao chegar à Grã-Bretanha, as crianças eram estranhos em terra estranha, na qual se falava uma língua que desconheciam. Alguns encontraram lares acolhedores e novos pais calorosos, prontos a alimentar mais uma boca. Outros tiveram que trabalhar como empregados nos lares que os acolheram. Muitos desses jovens serviram nas Forças Armadas Britânicas.

Todos, no entanto, deixaram de ser crianças quando embarcaram no trem, tornando-se adultos. Independentemente do tratamento que receberam na Grã-Bretanha, só podiam sentir-se agradecidos por estarem salvos, não podendo expressar outros sentimentos ou manifestar qualquer desgosto pela situação que haviam sido obrigados a enfrentar. Os anos se passaram, as crianças cresceram, compuseram novas famílias e dois deles conseguiram mesmo receber o Prêmio Nobel.

Um crítico que viu o documentário, disse na saída: "Ao assistir o filme, percebi que não se tratava de uma obra sobre o Holocausto, mas sim de uma análise das relações pais e filhos, suas recordações e sua separação".