JUDEUS NA ALSÁCIA


Antiga Sinagoga de Strasburgo, 1898

Em nenhuma outra região da França houve uma cultura judaica tão rica como a que existiu entre Estrasburgo e Mulhouse. Ainda hoje encontramos, nessa região, vestígios de 90 sinagogas e mais de 60 cemitérios.


Edição 31 - Dezembro de 2000
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Com uma chave enorme, do tamanho de sua mão, totalmente enferrujada, Roger Chan abre a porta da sinagoga de Westhoffen. Na fachada de pedra de cantaria encontramos rosetas gravadas; sobre a entrada lê-se, em letras hebraicas, o ano da construção do templo: 1865. Com uma expressão melancólica, o Sr. Chan recorda que até a década de 1930 lá se realizavam, diariamente, serviços religiosos.

Uma visão do interior da sinagoga mostra que esse tempo já vai longe. Onde havia os bancos, só se vê um piso de tábuas velhas, empoeirado e mal conservado. Em todos os cantos do teto o mofo tomou conta e o vento corta a sinagoga pelas vidraças e janelas quebradas. Roger Chan, de 69 anos, anda pelo recinto, mostrando o que, no passado, existira nos diversos lugares. O armário com os rolos da Torá ficava bem em frente e um lindo lustre descia do teto. As mulheres só po-diam usar a parte lateral, no alto. Há pouco mais de um ano, a prefeitura de Westhoffen mandou colocar grades de arame no lugar das janelas, que estavam servindo de abrigo para os pombos.

Na aldeia alsaciana de Westhoffen, situada 30 km a oeste de Estrasburgo, a vida judaica se extinguiu depois da 2ª Guerra Mundial. Somente quatro judeus lá residem, atualmente: o sr. Chan, sua irmã de 70 anos e outra senhora, com um filho rapaz de 26 anos. Como em todas as outras aldeias da região, os velhos morreram e os jovens partiram em busca de paragens mais atraentes, com melhores oportunidades para seu futuro.

Chan nos levou à sua casa, para continuar o relato. Sentado em uma poltrona, conversa com a irmã no dialeto dos judeus campesinos que, dentro de muito pouco tempo, ninguém mais usará: o iídische alsaciano, que vem desde a Idade Média. Muitas de suas expressões foram incorporadas ao idioma alemão e ainda são hoje utilizadas. Schmusen, conversar, bater papo; schlemazel, desafortunado, ou meshugue, adoidado, são exemplo disso. Conta-nos, então, que os primeiros judeus chegaram ao Vale do Reno com as legiões romanas, no início de nossa era. No entanto, sua presença na Alsácia só é atestada pelos documentos a partir do século 11. Viviam geralmente nas cidades.

No ano passado, o "Consistoire Israélite du Bas-Rhin" incumbiu o sr. Chan de fazer uma lista de todos os judeus que lá viviam antes da guerra. Puxando pela memória, conseguiu relacionar 67 famílias. Em outra lista, de 41 nomes, constam os que lograram retornar da guerra. Chan se recorda que apenas dois membros da comunidade foram exterminados em campos de concentração, o que é relativamente pouco comparado a outras aldeias da região.

De lá, passamos ao pequeno museu em Bouxwiller, a 40 km a noroeste de Estrasburgo, que documenta a história dos judeus da Alsácia. Gilbert Weil, professor aposentado de arquitetura na Universidade de Marselha, reuniu na antiga sinagoga de sua cidade natal documentos e objetos da cultura judaica. Encimando a entrada da antiga construção, vê-se uma inscrição em dialeto iídische-alsaciano, com caracteres alemães: LEWE UND LEWE LONN - Viver e deixar viver. O prédio, de três andares, foi transformado em museu, carinhosamente administrado por esse professor. O acesso se faz por uma rampa e os objetos estão expostos cronologicamente pelos andares até chegar-se ao terceiro andar, onde estão expostas peças da atualidade.

Conta o sr. Weil que a população geral e os judeus alsacianos viveram em perfeita harmonia desde a Idade Média. Não havia guetos, como nas cidades do leste europeu. Na aldeia, todos se conheciam e os costumes religiosos judaicos eram conhecidos e respeitados pelo resto da população. Mas essa convivência pacífica foi abalada no século 14, com as primeiras Cruzadas, quando surge uma grande hostilidade com relação aos judeus, reforçada durante a época da Peste Negra que se abateu sobre toda a Europa. Por volta de 1349, em Estrasburgo, os judeus foram acusados de ter envenenado os poços d'água. Dois mil judeus foram queimados no local onde hoje é a Praça da República e grandes contingentes foram expulsos da maioria das outras cidades da Alsácia. Em uma das vitrines vê-se uma espécie de trombeta, o Grüsselhorn, que era tocado, todas as tardes, do telhado da Igreja do Domo, exortando os judeus a deixar a cidade.
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