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Ao receber um sinal, os guardas começaram a empurrar a massa humana para dentro dos trens. Todos iriam caber dentro dos vagões de alguma forma, vivos ou mortos. Milhares foram empurrados em cada vagão e as portas fechadas. O trem tinha como único destino a morte de seus passageiros. Algumas vezes os trens iam para um campo de extermínio; em outras eram abandonados em algum trilho por dias, semanas e, até que desaparecesse qualquer vestígio de vida.

Jan entrou em choque, seu instinto de sobrevivência desaparecera. Perdeu o controle sobre suas emoções. Soluçando enquanto tremia e gesticulava, foi levado às pressas para fora do campo pelo guarda ucraniano que havia sido subornado para deixá-lo entrar. Passaram-se horas até Jan conseguir se refazer e voltar para Varsóvia.

A missão

Em Varsóvia, ciente da importância de sua missão, Karski selou dentro de uma chave um microfilme que continha documentos e provas das atrocidades cometidas por alemães e iniciou sua viagem através da Europa ocupada. Chegou em Londres em novembro de 1942 e entregou o microfilme ao governo polonês no exílio, assim como as informações sobre a destruição dos judeus.

A primeira notícia sobre massacres e um plano alemão para eliminar os judeus da Europa já havia chegado no ocidente. Em maio do mesmo ano, o Bund conseguira mandar um relatório extremamente preciso sobre os primeiros estágios do Holocausto: os massacres no Leste e os campos de extermínio de Chelmno.

Em agosto, o rabino Wise, presidente do Congresso Judaico Mundial, recebera da sede de Genebra um telegrama alarmante, alertando-o sobre relatos de fonte fidedigna. Um industrial alemão com penetração dentro da elite nazista afirmara existir um plano para exterminar todos os judeus da Europa. O Vaticano confirmara as notícias. As informações sobre o Holocausto foram recebidas com muito cuidado. Ninguém, nem mesmo os judeus, conseguiam acreditar que tamanha monstruosidade fosse possível. Existiam provas concretas, alguém vira o que estava sendo divulgado? Jan Karski era uma testemunha ocular, a primeira delas. Passou a relatar as execuções, as deportações em massa e as condições sub-humanas do gueto. Contou tudo. Tentou de todas as formas mexer com a consciência dos líderes aliados em Londres, mas estes se mostraram relutantes em agir. Após uma reunião secreta com o ministro britânico, Jan escreveu: "No dia 13 de fevereiro de 1943 informei a Anthony Éden o que sabia sobre a destruição dos judeus na Polônia. Ele me respondeu que a Inglaterra já tinha feito o bastante ao aceitar 100.000 refugiados".

Ainda em Londres Karski se encontrou com Samuel Zygelboym, membro do Bund. Desconcertado ao ouvir a mensagem da Resistência Judaica, Zygelboym repetia: "É impossível, absolutamente impossível". Após ouvir tudo, disse: "Farei tudo que pediram". Meses mais tarde, em 12 de maio de 1943, logo após a liquidação do Gueto de Varsóvia, Zygelboym suicidou-se. Era sua última forma de protesto contra a indiferença e a passividade do mundo perante a destruição dos judeus.

Em julho de 1943 Karski foi aos Estados Unidos, onde se encontrou com líderes judaicos, membros do Congresso e do gabinete do presidente americano Roosevelt. Foi recebido mesmo pelo próprio presidente norte-americano. Durante todo o ano falou, escreveu em jornais, mas todos os seus esforços resultaram em pouca ação concreta. Ninguém ajudou os judeus. Em 1995 disse numa entrevista: "Talvez eles não tenham acreditado, talvez pensaram que eu estava exagerando".

Um Justo

Com o fim da guerra e o advento do comunismo na Polônia, Jan Karski decidiu ficar nos Estados Unidos e sair da vida pública. "O Senhor, D'us, me deu um papel: falar e escrever durante a guerra". Afirmava que quando ainda acreditava que algo podia ser feito nada fora feito. Amargurado queria esquecer e ser esquecido. Prometeu a si mesmo não mais falar dos acontecimentos que testemunhara. "Naquela época eu odiava toda a humanidade".

Tornou-se um admirado professor em Georgetown e, em 1954, cidadão americano. Em 1965 Karski se casou com uma judia polonesa, Pola Nirenska, sobrevivente do Holocausto.

A primeira vez em que falou publicamente depois da guerra sobre o que vira no Gueto de Varsóvia e em Izbica foi na década de oitenta, no depoimento que prestou para o documentário de Claude Lanzmann, "Shoah".

Em 1988 plantou na avenida dos Justos, em Yad Vashem, uma árvore em seu nome. Recebeu uma medalha com a inscrição "Quem salva uma vida salva toda a humanidade".lado, continuadamente: "Lembre-se disto, lembre-se disto!"
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