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No entender de Renan, a Guerra de Tróia, a invasão da Espanha pelos muçulmanos e as Cruzadas foram clássicos exemplos do confronto ariano-semítico. Por seu turno, Drumont acreditava que estes dois pólos étnicos, cujas origens datam dos primórdios da Humanidade, geraram os traços definidores do ser humano, da sociedade e da cultura. O ariano seria o homem ideal, o ser que sempre se supera, o ente voltado à transcendência; o semita era o homem da matéria, da realidade e do objetivismo. O lugar do ariano é a floresta; o refúgio do semita é o deserto. Na "França Judia", aparecem os estereótipos físicos do judeu: o nariz adunco, os pés chatos, braços de tamanhos diferentes e mãos pouco firmes indicando a sua predisposição para hipocrisia e a traição. Toda esta paranóia era uma forma de mostrar que o semita, ser de "sangue corrupto" é intrigante, mercantil, sutil e covarde. Já o ariano é entusiasta, heróico, cavaleiresco, desinteressado e franco. E Drumont arrematava: "judeus não têm verdadeiramente o mesmo cérebro que nós; a evolução deles é diferente da nossa e tudo que vem deles é excepcional e bizarro".

Uma sociedade disposta ao ódio

Os principais motivos que facilitaram a propagação de idéias anti-semitas na França foram, em primeiro lugar, o custo sócio-econômico que o desenvolvimento do capitalismo impôs às camadas médias e à classe operária. Em suas consciências, tornava-se cada vez mais evidente a aliança entre finanças e judeus. No entender deles, a Revolução Francesa implantara o modo de produção capitalista e libertava os judeus. Ora, o vínculo era claro. Além disso, a proclamação da República, outra "filha" da Revolução, convenceu os setores católicos mais conservadores de que havia um nexo ideológico e político entre republicanos, maçons e judeus. Surge, então, a proposta de que seria possível uma aliança entre classes médias e o proletariado contra o liberalismo, o judaísmo e o capitalismo em defesa da "velha e verdadeira França". Para Drumont, esta ação conjunta seria o futuro da História. Maurras denominava esta "frente ampla" de pequenos burgueses e trabalhadores de "nacional-socialismo", inventando assim o título da hedionda organização que, anos depois, nasceria na Alemanha. Drumont e seus comparsas, agrupando elementos anti-semitas, anti-liberais e anti-capitalistas, visavam edificar uma ideologia e uma ação política de derrubada da República, por meio de uma exótica união entre monarquistas e revolucionários socialistas. A "demonização" do judeu serviu para que as massas marginalizadas, os pequenos comerciantes e os artesãos tradicionais, vitimados pela evolução capitalista, assim como para os operários explorados e os camponeses impelidos ao êxodo rural, explicassem os males que assolava a França. O anti-semitismo oferecia uma preciosa arma para todos os que desejavam manter a ordem social tradicional. Tal concepção anulava a luta de classes, agora encarada como obra de uma minoria de agitadores e especuladores judeus que oprimiam a maioria dos franceses arianos e católicos.
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