Na década de 1880, a França veio a conhecer a primeira grande onda de anti-semitismo. Na ocasião, baseando-se na encíclica papal Humanum Genus, que acusava a maçonaria de ser uma sociedade secreta conspiratória, o conservador jornal católico "La Croix", acusava judeus e maçons de serem inimigos da "verdadeira França". Após algumas manifestações públicas de anti-semitismo, o preconceito, pouco a pouco, diluiu-se. O furor irracional contra os judeus voltaria a aflorar em 1886, quando um até então desconhecido autor - Édouard Drumont - publicou um enorme panfleto, "A França Judia", que após longos meses encalhado nas livrarias, tornar-se-ia um "best seller" do anti-semitismo. No período anterior ao "caso Dreyfus", o livro de Drumont já chegara a 145 edições, multiplicadas várias vezes a part ir do rumoroso "affaire". O livro é, basicamente, o resumo das três características que definem o anti-semitismo francês.
Em primeiro lugar, um antijudaísmo cristão. Para a direita católica gaulesa, o cristianismo implicava o ódio ao judeu. No imaginário conservador, o primeiro grande abalo sofrido pela Igreja Católica na França fora a Revolução iniciada em 1789 e que destruíra o Antigo Regime. Este mesmo processo revolucionário, que dera cidadania aos judeus, só poderia, portanto, ser obra dos judeus. Tal sofisma aparece nas páginas de Drumont quando este adverte "que somente os judeus tiraram proveito da Revolução. Tudo veio do judeu. Tudo volta para o judeu". Consolidou-se, assim, na França, a idéia de que a Revolução fora provocada pelos maçons e judeus que teriam inspirado diabolicamente os jacobinos.
Ainda no século XIX, a sociedade francesa foi bombardeada com um dos mais terríveis libelos anti-semitas: "os protocolos dos sábios do Sião", um documento forjado pela polícia czarista, acusando que, na Suíça, promovera-se uma reunião das lideranças judaicas para elaborar um plano de dominação mundial. Drumont foi um dos mais ativos divulgadores da "obra". Simultaneamente, Charles Maurras, o criador da "Ação Francesa" - uma organização ultra-conservadora e monarquista - denunciava os "perigos" das conspirações judaicas para a sociedade ocidental.
Ao longo do Segundo Império (1852-1870), encabeçado por Napoleão III, centenas de autores se caracterizavam por um anti-judaísmo cristão mesclado com anti-liberalismo. A derrota na Guerra Franco-Prussiana de 1870-1871, a tomada de Roma pelo governo italiano quando da unificação, fato que irritou os católicos pela extinção dos estados pontifícios, o levante Socialista da Comuna e o advento da Terceira República alimentaram a propaganda anti-semita ainda mais. Popularizou-se uma simplista equação: "República = Maçonaria = Judeus".
Outro aspecto do anti-semitismo francês, que também foi alardeado por Drumont, era o que se pode chamar de "anti-semitismo econômico". De fato, o anti-capitalismo é o tema central das obras de Drumont, que identificava judaísmo e capitalismo. Segundo ele, a França, "honesta e trabalhadora" do Antigo Regime fora substituída logo após a Revolução de 1789, por uma nação dominada por improdutivos usurários. Para as camadas populares, descontentes com o capitalismo, esta idéia - aparentemente comprovada pela fortuna dos Rothschild - era especialmente sedutora e veraz. A curiosa mistura de anti-judaísmo e anti-capitalismo repercute até mesmo no seio da intelectualidade de "esquerda", gerando um paradoxal "socialismo anti-semita". Teóricos do porte de Fourier, Proudhon e Michelet defendiam o ponto de vista de que é completa e recíproca a assimilação entre judeus e financistas. Chegaram muitos até a chamar de "judeus" os especuladores protestantes e católicos.
Aliado à fobia anti-germânica provocada pela derrota francesa em 1870, o anti-semitismo defendia a idéia de que os banqueiros judeus alemães queriam destruir a França.
A terceira e última característica do anti-semitismo francês foi o racismo de bases pseudo-científicas. Com efeito, uma leitura deformada dos progressos da ciência biológica durante o século XIX, levou ao nascimento da Eugenia, falsa "disciplina científica", que propunha a possibilidade de "métodos racionais" para o aprimoramento das raças. Drumont e seus seguidores usaram "conceitos eugênicos" para descaracterizar o judaísmo como religião e defini-lo como raça. No livro "A França Judia" justapõe "arianos" e "semitas". Uma enorme contribuição a esta delirante visão das culturas humanas foi dada pela lingüística. Em 1882, o livro "A História Geral e o Sistema Comparado das Línguas Semitas", escrito por Ernest Renan, procura provar que a "chave" para se compreender a História Universal é o eterno conflito entre arianos e semitas. No texto, lê-se que "a raça semítica, comparada à raça indo-européia, representa eternamente uma combinação inferior da natureza humana". |