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A natureza do ser humano é feita de tal maneira que quando ele se concentra e pensa em algo vital, não pode desligar-se daquilo e nem consegue dar importância a assuntos menos necessários. Quando alguém acha que merece tudo do bom e do melhor, um carro mais bonito, uma casa mais confortável, roupas de luxo e assim por diante, apesar de não cometer nenhum erro ao desejar tudo isto, estará degradando-se. Pois não terá tempo para pensar nas mitzvot que, a seu ver, não são consideradas algo vital e assim ele chegará a esquecer-se do Eterno. E é esse mesmo o significado da afirmação do Talmud: "D'us diz ao orgulhoso, Eu e você não podemos morar juntos".

Dizem nossos sábios que aquele que é indulgente e humilde será perdoado. Por quê? Pois aquele que pecou, sem dúvida, foi caprichoso ao realizar o pecado. Depois do erro, ao se arrepender, cedeu ao desejo de realizar a vontade do Criador e logo será perdoado. Assim como os seres humanos agem com os seus semelhantes, da mesma forma o Todo-Poderoso atua conosco. Quando alguém foi oprimido, porém não se vinga e sim perdoa, então, com esta mesma atitude o Todo-Poderoso age, também tornando-se misericordioso e aceitando o perdão. Porém, se o indivíduo não perdoar, a lógica diz que se o ser humano não é capaz de perdoar, por que o Todo-Poderoso deveria perdoar nossos erros?

Os sábios do Talmud nos surpreendem com uma afirmação aparentemente injusta em relação aos médicos. Tov shebarofim Leguehinom - O melhor entre os médicos irá ao inferno.

Muitas personalidades, além de serem grandes líderes judaicos e renomados rabinos exerciam também a medicina como profissão. É desnecessário citar como exemplo Maimônides, que se destacava nesta área e atuava como médico particular do sultão. Por que, então, esta atitude em relação a estes que D'us designou como sendo os mensageiros para trazer a cura aos enfermos?

Mais uma vez a afirmação talmúdica não é evidente. Por que somente o melhor entre os médicos merecerá tal castigo e não qualquer outro médico?

Nossos sábios queriam ensinar-nos uma lição de moral que, na realidade, serve para todos e não apenas para os médicos.

Geralmente um médico simples, não muito famoso, sabe de seus limites e reconhecerá logo sua falha quando não acertar o diagnóstico. O problema surge quando o médico é conhecido como o melhor. Como um tal profissional reagirá numa situação que ele desconhece? Será que irá rebaixar-se em consultar outro colega ou irá receitar algum remédio errado ou um tratamento inadequado ao paciente só para não comprometer a sua reputação? Nestes momentos críticos o orgulho não deixa a pessoa abaixar a cabeça e faz com que ela pense que é a melhor, não precisando, portanto, de conselhos ou orientações.

Por isso nossos sábios concluíram que o melhor entre os médicos irá ao inferno... Aquele que acha que é o melhor e que não necessita da opinião dos outros colegas, este, sem dúvida causará muitos danos físicos e morais a seus pacientes. Portanto, será castigado pela sua atitude errada.

O ser humano é orgulhoso por nascença. Esta é a essência de sua natureza. São necessários anos de estudo e de auto-aprimoramento para alcançar a virtude da humildade. É muito comum uma criança ser voluntariosa. A criança chora e se enerva quando a sua vontade não é realizada ou quando é contrariada. Isto é, sem dúvida, sinal de orgulho. "Como?" - a criança resmunga, "eu pedi tal coisa, eu quis aquilo e não estão-me atendendo, como isto é possível?" Quando uma criança é paciente e indulgente, é sinal que não é orgulhosa e que entende que talvez não mereça ver realizado o seu pedido.

Aliás, isto pode servir de teste e de lição para todos. Qualquer um que seja paciente e não se enerve facilmente, demonstra ser uma pessoa indulgente e humilde. Ele não irá ficar descontrolado ao saber que não realizaram sua vontade, pois entende muito bem que talvez não seja possível atender seu pedido.

Que possamos assimilar estes ensinamentos e ser dignos de um novo ano repleto de saúde, alegria e muitas realizações!

Rabino Avraham Cohen
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