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Marc Chagall: "Hanna invoca D'us"
Hanna, mãe do Profeta Samuel, é uma das sete profetizas mencionadas na Torá e sua história é lida na Haftará do primeiro dia de Rosh Hashaná, já que foi neste dia que suas orações foram finalmente atendidas.
| Edição 30 - Setembro de 2000 |
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No primeiro capítulo do livro de Samuel, o profeta inicia a narrativa contando que na época dos Juízes, quando Eli era Cohen Gadol e a Arca Sagrada estava no Santuário de Shiló, vivia no povoado Ramataim Tsofim, na região montanhosa de Efraim, uma mulher chamada Hanna. Hanna, casada com Elcanã, membro da tribo de Levi, sofria silenciosamente, pois não conseguia dar ao marido uma criança, enquanto Penina, a outra esposa de Elcanã tinha sete filhos. Apesar do marido amá-la e tentar reconfortá-la, Hanna queria muito ter um filho. E não perdia as esperanças. Constantemente humilhada e atormentada por Penina, Hanna não se queixava, somente orava para que D'us atendesse seu pedido.
Todos os anos, nas tradicionais festividades judaicas, Elcanã levava toda sua família para Shiló. Eram todos tão benquistos que, quando a caravana de Elcanã se aproximava, uma multidão juntava-se para saudá-la. O Santuário em Shiló era o coração da Nação Judaica na época dos Juízes e era para lá que iam os judeus em peregrinação, três vezes ao ano.
Durante uma das peregrinações anuais, Hanna, angustiada pela sua esterilidade, foi até o Santuário e, chorando, orou em pé, falando a D´us do fundo de seu coração. Pediu a D'us que a abençoasse com um filho e prometeu que, se Ele lhe concedesse tal graça, seu filho dedicaria sua vida ao Todo-Poderoso. Seus lábios se moviam "porém não se lhe ouvia a voz". Hanna orou e orou.
Sem se fazer notar, o Sumo Sacerdote Eli a observava e, pelos movimentos de seus lábios, pensou que Hanna estivesse bêbada. Repreendeu-a por ousar entrar no Santuário em tal estado, mas ela respondeu firmemente e com dignidade: "Não, meu senhor, eu sou apenas uma mulher cuja alma está muito ferida. Não bebi sequer uma gota de álcool, mas despejei minha alma diante de D'us".
Eli, então, percebeu seu profundo sofrimento e lhe disse: "Vá em paz, e o D'us de Israel atenderá o seu pedido". Hanna agradeceu-lhe e partiu com o coração cheio de alegria e esperança, certa de que seu pedido se realizaria. E assim foi. "E, como resposta à oração vinda do fundo do coração de Hanna, D'us a abençoou com um filho", (I Samuel 1:20) Samuel, que se tornaria o grande profeta de Israel.
Naquela mesma noite, ao voltar com Elcanã para sua casa em Rama, Hanna engravidou. Deu à luz um menino, a quem chamou Samuel, cujo significado é "Eu o pedi (tomei emprestado) a D'us". Hanna, porém, não havia esquecido de sua promessa e, assim que Samuel cresceu um pouco e não precisou mais do leite materno, levou-o a Shiló.
Ao apresentá-lo ao Sumo Sacerdote, disse: "Meu senhor, eu sou a mulher que o senhor viu orando. Eu orei e pedi a D'us por esta criança e Ele me atendeu". Falou-lhe, também, de sua promessa, e confiou-lhe seu amado filho para que este crescesse na atmosfera sagrada e religiosa do Santuário. Samuel tornou-se um dos maiores profetas de Israel tendo ungido tanto Saul quanto David, reis de Israel. Hanna teve ainda mais sete filhos.
Pode-se imaginar que, ao deixar Samuel, o filho pelo qual esperara tanto tempo, seu coração ficaria partido. Mas, ao contrário, sua gratidão para com D'us era tão grande que ela estava invadida de alegria pelo filho que orou e suas palavras, conhecidas como a Oração de Hanna, são lidas como um hino. Ela não expressou só sua gratidão pessoal para com o Criador, mas sua gratidão e encanto por todas as obras do Senhor, Mestre do Universo.
Assim, inicia Hanna:
"Meu coração se alegra em D'us... Não há nada como D'us, por que não há o que se compare a Ele; nem uma rocha é como nosso Senhor...".
"... Porque do Eterno são os alicerces da terra e sobre eles assentou o mundo...".
E Hanna continuou: "Não fale com tanto orgulho; não deixe a arrogância sair pela sua boca, pois D'us é Onipresente; e conhece todas as ações; D'us traz a morte e faz vida; Ele enterra e ressuscita; D'us faz o pobre, e faz o rico; Ele derruba, e também Ele ergue; tira os pobres e os mendigos da miséria para elevá-los a príncipes, tornando-os herdeiros do trono da glória...".
Na medida que se lê as palavras da profetisa, percebe-se o quão adequadas são para Rosh Hashaná, quando nossos atos passados estão sendo examinados e nosso futuro está sendo decidido.
Além de sua oração, Hanna nos deixou mais um importante legado: sua postura ao orar à frente do Santuário, que serve de modelo para recitar-se a mais importante das orações judaicas: a Amidá (em pé), também chamada de Shmone Esrê (Dezoito Bênçãos). A Amidá é orada três vezes ao dia em silêncio e em pé, movendo-se os lábios, mas sem emitir qualquer som. Assim, como Hanna orou no Santuário. Esta oração nos coloca na presença de D'us e para Ele dirigimos nossos corações. Acredita-se que, quando o coração está em plenitude pela presença do Senhor, o sussurro é a melhor expressão da reza.
Segundo o Talmud, o primeiro verso da Oração de Hanna contém a profecia que anuncia que Samuel, seu filho, seria profeta em Israel; que o povo de Israel seria expulso de sua terra; que Samuel faria milagres e que seu neto Heyman e seus 14 filhos cantariam e rezariam salmos no Templo, juntamente com outros Levitas. No segundo verso da oração, Hanna prevê a derrota de Sanecherib nos portões de Jerusalém. Mais adiante, fala sobre Nabucodonosor e outros inimigos de Israel, entre os quais os macedônios (gregos), que seriam derrotados pelos hasmoneus; sobre Haman e seus filhos e sobre sua derrota pelas mãos de Mordechai e Esther. |
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