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Nesta época, sensibilizado pela guerra e pela dor da morte da filha, Freud completou seu trabalho "Além do Princípio do Prazer", em que pela primeira vez reconhecia o instinto de morte. Descrevia uma luta constante para a supremacia entre Eros, a força da vida e do amor, e Thanatos, a força da morte e da destruição.

Em 1923, quase com setenta anos, em seu estudo clássico "O Ego e o Id", completou a revisão de suas teorias. Formulou um modelo estrutural da mente como constituída de três partes distintas, mas que interagem entre si.

Naquela época o movimento psicoanalítico florescia e Freud era reconhecido mundialmente. Em 1923 Freud sofreu a primeira de uma série de cirurgias para a extirpação de um tumor no palato, que o obrigaria a usar uma prótese, deixando-o com dificuldades para falar e nunca mais ele se veria livre da dor e do desconforto.

Em 1930 publicou "Civilização e seus Descontentamentos", lançando um olhar pessimista e desiludido sobre a civilização moderna à beira da catástrofe.

Com a ascensão de Hitler, Freud, já velho e cansado, não desejava sair de Viena. Seus melhores amigos já haviam morrido. Mas, em 1938 os nazistas marcharam sobre Viena sendo recebidos por uma população exultante e as violências anti-semitas espontâneas tornaram-se freqüentes. Freud se convenceu de que devia emigrar. Levou meses para cumprir o resgate extorsivo que o governo nazista exigira. Em 6 de junho, finalmente, Freud, acompanhado por sua família, desembarcava em Londres para morrer em paz.

FREUD e o JUDAISMO

Velho e doente, Freud não parou de trabalhar. Publicou sua última obra "Moisés e o Monoteísmo", que chocou profundamente seus leitores judeus e não judeus com a afirmação de que Moisés era um príncipe egípcio. O mais grave deste mito sobre Moisés surgiu na antiga Grécia, iniciando uma vasta lenda antijudaica.

Cientista genial, escritor talentoso e pensador revolucionário, cultuava um gosto artístico conservador e hábitos pessoais rígidos. Era metódico nos horários para atender seus pacientes, dedicar-se à pesquisa, fazer caminhadas e participar dos encontros de sua amada organização B'nai Brith, conduzindo uma vida confortável e organizada de classe média.
O relacionamento de Freud com sua herança judaica era complexo e ambíguo. De um lado era hostil a qualquer crença e prática religiosa e preferia as idéias liberais e humanitárias em voga na Áustria nos anos 1860-70. Nunca usou seu nome judaico Shlomo e germanizou para Sigmund seu nome original Sigismund, recebido em homenagem a um rei polonês do século XVI que havia sido tolerante com os judeus.

Freud era um judeu orgulhoso que nunca renegou suas origens. Numa época em que muitos dos seus colegas optaram pela conversão para serem aceitos na sociedade germânica, ele afirmava: "Meus pais eram judeus e eu me mantive judeu".

Freqüentava reuniões da B'nai Brith, lá proferindo várias palestras. Usava um amplo repertório de piadas e anedotas judaicas. A maioria de seus colaboradores eram judeus, tanto que temia que a psicanálise fosse considerada uma ciência judaica. Perguntado o que havia de judaico em seus ensinamentos, respondia: "Não muito, mas provavelmente o essencial."

Fumante de charuto inveterado, Freud sofreu durante 16 anos de um câncer de palato, e teve que se sujeitar a 33 cirurgias. Enfrentou a doença corajosamente e sua morte ocorreu em Londres, em setembro de 1939.
Manteve-se ativo até o fim de sua vida como terapeuta e pensador e ninguém, nem a autoridade nazista, conseguiu dobrar seu orgulho: obrigado a assinar um documento que havia sido bem tratado pelos nazistas para receber autorização para sair da Áustria, acrescentou a frase : "Recomendo calorosamente a Gestapo para todos".

PALAVRAS DE FREUD PROFERIDAS À SOCIEDADE
B'NAI BRITH EM VIENA, EM 1926

"A minha ligação com o judaísmo não era, tenho vergonha de admitir, nem a fé nem o orgulho nacional, pois sempre fui um descrente e fui criado sem religião, porém não sem respeito pelo que chamamos de valores éticos da civilização humana.

Mas permaneceram muitos outros fatores para tornar irresistível a atração do Judaísmo e dos judeus, muitas forças emocionais obscuras, tanto mais poderosas quanto menos podiam ser expressas com palavras, como também uma clara consciência de uma identidade íntima e a segurança de uma individualidade constituída por uma estrutura mental comum. E, além disso, havia uma percepção que somente devido à minha natureza judaica eu tinha duas características que haviam se tornado indispensáveis para mim no decorrer das dificuldades de minha vida. Por ser judeu, eu me vi livre de muitos preconceitos que limitam os outros no uso do seu intelecto, e, como judeu, eu estava preparado para me unir à oposição e para lidar com a falta de consenso por parte da maioria das pessoas".


Bibliografia:

• Peter Gay- Sigmund Freud : A Brief Life - Biographical Introduction to Sigmund Freud's
"New Introductory Lectures on Psyco-Analysis".
• Sigmund Freud- Time 100- Time Magazine March 29, 1999.
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