REVIVENDO OS CASAMENTOS SEFARADITAS


Vestimenta usada em cerimônia nupcial Séc. XIX, Marrocos.

Até há pouco tempo, os judeus sefaraditas dos Bálcãs e da Turquia casavam-se muito cedo. A moça tinha 14 anos ou menos e o rapaz entre 18 e 20 anos. Considerava-se uma grande humilhação para os pais se seus filhos permanecessem solteiros após esta idade.


Edição 29 - Junho de 2000
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Os jovens não podiam demonstrar sua preferência ou aversão na escolha do parceiro. Era um assunto que só dizia respeito aos pais. O casal geralmente não se conhecia até o noivado e, mesmo depois, só podia encontrar-se em Pessach e em Sucot, com um intervalo de sete meses.

Famílias ricas preferiam que suas filhas se casassem com filhos de famílias de rabinos, que, mesmo tendo menos recursos, eram muito considerados. Era uma honra ter um chacham, um sábio, como genro. O noivado durava um ano. Era o tempo necessário para que a família da noiva preparasse o enxoval. A esta cabia prover toda a roupa de cama e, inclusive, o colchão.

As celebrações, que culminavam no casamento, começavam com a almosamma, festa realizada na casa da noiva na noite do sábado que precedia a semana do casamento. Amigos e familiares da noiva vinham dançar, cantar e comer doces até o dia raiar. Um costume muito popular nas famílias sefaraditas era o da família do noivo assar um certo doce, chamado de "bolinhos de susán", e mandá-los a seus familiares e à família da noiva, como um símbolo de korban, ou sacrifício, para proteger o futuro casal do mau-olhado.

Na véspera do casamento, o casal, especialmente o noivo, tinha muitas tarefas a cumprir, entre as quais arrumar o salão para a cerimônia, contratar a orquestra e os empregados para o banquete. Um homem, incumbido de fazer os convites, de posse de uma lista de convidados ia de casa em casa anunciando, em voz alta, o casamento. Uns dias antes da cerimônia, dois "especialistas" iam à casa da noiva avaliar seu enxoval, devidamente exposto sobre mesas e cadeiras. E isto era motivo de discussões intermináveis entre eles e a família da noiva.

O enxoval era depois levado à casa do noivo com grande pompa, ao som de canções turcas, executadas por músicos. O noivo, por sua vez, incumbia os músicos de entregarem à noiva um pacote envolto em seda, contendo perfumes e óleos de banho para serem utilizados na mikve, antes do matrimônio. Na tarde do casamento, enquanto a noiva se vestia, o noivo, seu pai e amigos passavam o dia na sinagoga. O rabino fazia o noivo prometer seguir as regras estipuladas na ketubá, o contrato de casamento.

Até o século XVIII, era costume local que, durante a cerimônia, toda mulher sentada perto da noiva cobrisse seu rosto com um véu negro. Há várias explicações para este costume de origem cabalística.(1) Uma explicação folclórica desta comunidade seria o fato de a noiva ser muito jovem e ainda não muito atraente e, por isso, temia-se que sua mãe ou sua sogra pudessem atrair mais atenção do que ela própria.

A bênção era dada ao casal sob um talit que era sustentado sobre sua cabeça por quatro homens. Depois procedia-se à leitura da ketubá e à tradicional quebra do copo.

A festa de casamento durava de quatro a cinco horas. A noiva era então levada até o quarto nupcial pela mãe, que lhe dava sua bênção, preparando-a para o grande evento. Enquanto isso, o noivo recebia as mesmas instruções de seus familiares. A mãe da noiva ficava vigilante, atrás da porta, devido à pouca idade dos recém-casados.

Na manhã seguinte ao casamento, a noiva já aparecia vestida com roupas novas, apropriadas a uma mulher casada. Recebia a bênção de seu pai, junto com uma jóia de presente. A semana que se seguia ao casamento era uma festa contínua para os recém-casados. Os amigos vinham visitá-los. A mãe do noivo praticamente não deixava a cozinha, preparando-se para servir os visitantes.

O último dia da semana nupcial era conhecido como o "o Dia do Peixe". Naquela manhã, o jovem marido ia ao mercado para sua primeira compra como chefe da família e adquiria um bom peixe. Em casa, o peixe era pintado, decorado com flores e colocado em um prato no chão. Na presença dos vizinhos e familiares, o noivo passava três vezes por cima do peixe, um símbolo de fecundidade. Um banquete era oferecido nesse dia, encerrando o período das festividades que havia se iniciado com a almosamma. E, por fim, o casal iniciava sua nova vida a dois.

Esses costumes simples, mas pitorescos, foram praticados até o fim do século XIX. A Revolução Turca e o grande incêndio que destruiu grande parte de Salônica, em 1917, inclusive a maior parte do bairro judeu, forçaram os sefaraditas a se dispersarem pela cidade, pondo fim às antigas tradições às quais estavam tão profundamente arraigados. Poucas destas ainda são praticadas ou mesmo conhecidas na presente geração.

Adaptado do artigo de Henry V. Besso