O RESSURGIMENTO DO ÍDICHE


"Vamos cultivar o vale", poster em Ídiche polonês e hebraico do Fundo Nacional Judaico

Inúmeras vezes me é feita a pergunta "Por que lutar pelo ídiche, uma língua que quase não é mais falada?". Tenho vivo interresse pelo idioma, luto pela sua preservação e continuidade, é minha língua-mãe. E posso afirmar que o destino do ídiche ainda não foi salado, como muitos afirmam. "Não te cabe terminar a tarefa, mas não és livre para dela desistir" (Pirkei Avot).


Edição 29 - Junho de 2000
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Entre todos os idiomas que serviram aos vários grupos judeus dentro de seus primeiros limites geográficos e que os acompanharam em sua dispersão como símbolo de sua identidade, o ídiche ocupa um lugar singular. Foi levado pelos judeus da Europa Central para os países da Europa Oriental e do Sul. Contrariamente à opinião comum, o ídiche não deriva do alemão contemporâneo, tendo aparecido e se desenvolvido paralelamente ao mesmo.

Em suas migrações, os judeus começaram a usar as línguas dos lugares onde viviam, adaptando-as com traços de sua própria cultura e costumes. Na época, o hebraico deixou de ser uma língua falada, e passou a ser usado somente nas rezas e na correspondência, sendo então chamado de Lashon Kodesh, língua sagrada, para diferenciá-la do idioma falado na vida diária.

Na segunda metade do século passado, os filólogos alemães e os pesquisadores judeus do ídiche chegaram à conclusão de que a base principal da formação desse idioma foram o dialeto germânico, chamado Hochdeutsch - o Laaz, bem como o hebraico e o eslavo.

Foi estabelecido pelos filólogos que o ídiche teria nascido há mil anos. É difícil dizer quando os judeus chegaram à Alemanha. Supõe-se que entre as legiões romanas que invadiram essa área havia guerreiros judeus. No século IV existia uma comunidade judaica em Colônia, na Alemanha, e os que lá habitavam tomaram o nome de Ashkenaz, que é o nome bíblico para Alemanha, assim como Sefarad era a Espanha e Tzorfat, a França. Daí a origem dos ramos Ashkenazim e Sefaradim, dentre nosso povo.

É curioso notar que o Hochdeutsch apenas é usado pelos judeus ao falarem o ídiche, pois este dialeto não é falado em parte alguma. Pode-se afirmar que a língua nasceu nas áreas fronteiriças franco-germânicas, às margens do Reno, por volta do século X. No entanto, é muito difícil estabelecer-se o mundo histórico em que nasce um idioma. Mas não há dúvida de que o acontecimento mais importante para a formação do ídiche foi o seu contato com os povos eslavos durante as migrações judaicas.

Antes da II Guerra Mundial, 11 milhões de judeus falavam o ídiche. Surgiram escritores clássicos que enriqueceram a língua e a fizeram florescer. Entre os mais importantes, Mendele Moher Sforim, I.L. Peretz, Scholem Aleichem e muitos outros. Começam, então, a aparecer publicações impressas nesta língua. A verve judaica e a capacidade de criação de nossos intelectuais não cessaram, continuando a surgir escritores em língua ídiche, e prova disto é o Prêmio Nobel de Literatura, outorgado em 1978 a Yitzhak Bashevis Singer, que sabidamente tem toda a sua obra criada neste idioma, apesar de se ter radicado nos Estados Unidos.

A II Guerra Mundial trouxe o aniquilamento da rica e florescente cultura judaica. Apesar de ter o nazismo exterminado milhões de leitores e escritores em ídiche, apesar do genocídio cultural na Rússia, a língua e a literatura ídiche mantêm o seu lugar privilegiado dentro da cultura de nosso povo. O ídiche não é apenas uma língua - o ídiche é amor, é um modo de viver, é toda a trajetória de um povo que sabe rir e que tem ricas memórias que devem ser lembradas e preservadas.

Está instalado em Tel Aviv o Comitê Mundial de Ídiche e Cultura Judaica, do qual faço parte. Na qualidade de representante de A Hebraica de São Paulo participei em diversos Congressos Mundiais nos quais se reúnem várias centenas de amantes do idioma, muitos dos quais jovens, que também lutam por sua preservação e continuidade.
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