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Outro indício que revela a falta de transparência no Julgamento de Shiraz - como está sendo denominado este processo é a estrutura da Corte Judiciária na qual o juiz ocupa as funções de procurador geral e também de responsável pelos interrogatórios nas prisões. "Com esta estrutura, na qual o mesmo indivíduo desempenha três funções-chave e interligadas, as autoridades sequer precisam usar tortura física ou psicológica", diz Sam Kermanian, secretário-geral da Federação Judaico- Iraniana em Los Angeles, Estados Unidos. E acrescenta: "Ainda mais se considerarmos que os réus estão isolados, vêem a família apenas cinco minutos por semana, através de vidros, e os 10.075 minutos restantes da semana estão sob total influência das autoridades, que podem visitá-los e dizer-lhes o que quiserem, quando desejarem, sem nenhum tipo de vigilância".

A acusação de espionagem surpreendeu a comunidade judaica iraniana de Los Angeles. Segundo Pooya Dayanim, porta-voz do Conselho de Organizações Judaico-Iranianas, nessa cidade, logo após a detenção dos 13 judeus, os setores mais radicais, que controlam o Judiciário do país, não se negaram a manter contatos com a liderança de Los Angeles, mas não fizeram nenhuma referência à acusação de espionagem.

Teriam falado em defesa dos negócios de Israel, que teriam sido prejudicados pela queda de Pahlevi, e também que, com essas prisões, estariam dando uma lição aos judeus iranianos da diáspora para que não se metessem nos negócios internos de Irã. "Sempre deixaram claro que isto é parte de um jogo de poder e que o Irã tem o controle total sobre seus cidadãos". As prisões ocorreram quando os congressistas americanos discutiam - ainda discutem - a política dos EUA em relação à Teerã. Desde o início do julgamento até o dia 15 de maio último, sete dos 13 detidos já haviam confessado ter espionado para Israel, apesar de seus advogados afirmarem o contrário. Kermanian acredita que até o final do mês de maio a Corte Judiciária dará sua sentença. "As autoridades produzirão qualquer documento ou evidência para fazer prevalecer sua opinião. Se isto não acontecer, então será uma grande surpresa".

OS DETIDOS

Javeed Beit Yakov, 40 anos
Nejat Broukhim, 35 anos
Ramin Farzam, 35 anos
Nasser Levi Haim, age 45 - declarou-se culpado
Faramarz Kashi, 34 anos - declarou-se culpado
Farzad Kashi, 30 anos - declarou-se inocente
Ramin Nematizadeh, 22 anos - declarou-se culpado
Shahrokh Paknahad, 22 anos - declarou-se culpado
Farash Saleh, 30 anos - declarou-se culpado
Dani Teffilin, 28 anos - declarou-se culpado
Omid Teffilin, 25 anos
Navid Bala Zadeh, 17 anos (preso aos 16)
Asher Zadhmer, 48 anos - declarou-se culpado

ORIGENS ANTIGAS

Os judeus têm vivido na Pérsia, atual Irã, há séculos, intercalando fases de tranquilidade com outras de repressão e conversões forçadas, além de manifestações claras de anti-semitismo. Durante o reinado do Xá Reza Pahlevi, quando as relações com o Estado de Israel eram harmoniosas, a comunidade judaica local viveu em prosperidade. A situação mudou radicalmente em 1979, com a instauração da Revolução Iraniana e a ascensão do fundamentalismo islâmico do aiatolá Khomeini. A comunidade judaica diminuiu de 100 mil para 25 mil pessoas, concentradas principalmente em Teerã, a capital. Os demais estão espalhados em milhares de cidades. A legislação iraniana determina que no Parlamento, também chamado de Majlis, haja um membro judeu, representando a comunidade. De modo geral, os judeus enfrentam dificuldades financeiras.

Apesar das restrições, os judeus mantêm uma vida comunitária relativamente estruturada, na medida em que não sejam considerados uma ameaça ao estado islâmico. A maioria dos membros da comunidade iraniana é composta de judeus ortodoxos e Shiraz, nos últimos anos, tornou-se um forte centro religioso, atraindo principalmente os jovens. Tal comportamento, acredita o líder comunitário judeu em Los Angeles, pode ter irritado as autoridades de Teerã. Entre os 13 detidos está o chefe espiritual de Shiraz.

Fontes ligadas à instituições judaicas americanas afirmam que, desde 1979, 17 judeus foram condenados à morte, acusados de espionagem, e dois foram executados em Teerã, há três anos. Em dezembro de 1999, o corpo de um judeu de 44 anos foi encontrado nesta cidade. No dia anterior, ele fora denunciado como espião por seu sócio muçulmano, com o qual brigara. Os judeus são a segunda minoria, depois dos membros da fé Bahai, considerados como inimigos pelo governo.

Assim, enquanto o mundo observa os fatos e o Ocidente espera para reavaliar a sua política em relação ao Irã, 25 mil judeus iranianos aguardam com grande ansiedade. Além de sua preocupação com os 13 membros de sua comunidade, o veredito da Corte Revolucionária será uma mensagem para tos que ainda vivem no país - uma mensagem referente a seu status como minoria reconhecida, com direitos civis e liberdade religiosa.
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