As palavras saíam esticadas e às vezes sem nexo. O que deu para entender era que nós, os saujuden (porcos judeus) matamos Jesus. Infelizmente não podíamos ser mandados para Grossrosen, porque tínhamos de acabar as fortificações. Ele, um bom cristão que era, ia vingar o sangue de Jesus, que nós derramamos. Por isso, íamos ficar ao relento para sentir o frio que Jesus sentiu. Depois de mais xingamentos, entrou nos alojamentos dos guardas. O frio se tornava cada vez mais intenso, Olhávamos para as janelas do alojamento e os víamos comendo e bebendo. Sabíamos que nosso fim chegara. Muitos de nós começaram a cair. Não fomos autorizados a prestar socorro de espécie nenhuma. Mesmo querendo, não tínhamos meios de prestar algum socorro. Depois de muito tempo e muitas baixas entre nós, apareceu um cabo que ordenou a volta aos barracos. Dia seguinte, 25 de dezembro, de madrugada, saímos para sermos contados. O sau não apareceu. O sargento mandou trazer os outros prisioneiros que ainda estavam vivos, mas não podiam andar. Após a contagem, ofereceu uma sopa a quem quisesse remover a neve em volta do campo. Meu pai ainda estava vivo e se ofereceu ao trabalho. Trouxe um pouco de sopa para mim. Esta foi a última reunião junto com meu pai e como prisioneiro nos campos de extermínio nazistas. Daquele dia em diante não saímos mais para o trabalho. Nos primeiros dias de 1945, fomos levados para a marcha da morte. Levou mais cinco meses até a minha libertação. Quando chega o Natal e vejo a alegria nas faces das pessoas, lembro-me daquele Natal no Lager Lerche e lembro as pessoas caídas na neve. Lembro o Natal do ano de 1944, que nunca sairá de minha memória.
Aleksander Henryk Laks
Presidente da Associação Brasileira dos Israelitas
Sobreviventes da Perseguição Nazista - Sherit Hapleitá RJ |