Na realidade, D'us não descansou no sentido usual da palavra, mas dedicou-se a criar o Shabat. Afinal, o universo foi feito em 7, não em 6 dias.
Lendo o primeiro capítulo da Torá, percebemos que a o projeto da criação segue uma ordem enumerada do objetivo mais simples ao mais complexo. Primeiro foram criadas a luz e a escuridão. Depois surgiram os mares, as plantas, os animais, e assim por diante. Os últimos a serem criados não foram o homem e nem a mulher, mas sim o Shabat, no sétimo dia. Seguindo esse raciocínio, percebemos que tudo foi criado para o homem, mas esse também tinha sua função. Ele foi criado, entre outros, para "servir" o Shabat. O que faz o Shabat ser a última das criações? A sua própria semelhança com os atributos do seu Criador, como explicaremos mais adiante.
O descanso referido em nossos livros é o ato da não intervenção física e direta na matéria. Enquanto D'us cessou de criar, de intervir na natureza, os judeus não a transformam. Assim, para nos assemelharmos ao Criador (D'us criou o homem à sua semelhança) também não intervimos na matéria, não mexemos em eletricidade, não arrancamos folhas, não acendemos fogo, não colhemos frutas, não deixamos a água ferver e não deslocamos objetos que não tenham utilidade no Shabat, por exemplo. Pois essas são ações nas quais, de alguma forma, trocamos o rumo da matéria. Se não tivéssemos interferido, ela continuaria do jeito que estava antes.
Isso vem explicar a semelhança entre o Shabat e o Criador, pois Ele é Eterno, Imutável e, por analogia, podemos caracterizá-Lo envolto em grande tranqüilidade.
Como sabemos, no entanto, quais são ao trabalhos proibidos, cujas ausências caracterizam o descanso divino?
Essa pergunta nos remete ao episódio da construção do santuário, o Mishcan que o povo judeu carregava consigo no deserto, em sua subida do Egito para Israel. O Mishcan era o centro religioso do povo, naquela época, onde oferecia-se sacrifícios para D'us e, de alguma maneira que escapa à nossa compreensão, era uma maquete do universo. O seu engenheiro possuía todos os segredos da arquitetura do universo, e utilizou os mesmos trabalhos, ou melachot, usados por D'us nos 6 primeiros dias da criação. Portanto, as melachot, ou atos proibidos no Shabat, provêm dos trabalhos utilizados por nossos antepassados na construção do Mishcan.
Existem 39 melachot proibidas para o Shabat: transportar, queimar, extinguir, fazer acabamento, escrever, apagar, cozinhar, lavar, costurar, rasgar, amarrar, desamarrar, moldar, arar, plantar, segar, colher, debulhar, joeirar, escolher, peneirar, moer, amassar, pentear, fiar, tingir, fazer ponto em série, urdir trama, tecer, desembaraçar, construir, demolir, pegar em armadilha, cortar, abater, esfolar, curtir o couro, amaciar o couro e marcar.
É evidente que a simples leitura desses verbos não leva à compreensão de quais são as proibições. No entanto, um aspirante a Shomer Shabat deve estudá-los com profundidade.
Concluindo, o Shabat é um acontecimento central em nossas vidas e tem papel fundamental para quem busca o sentido de sua existência. É um dia que deve ser aguardado com ansiedade durante a semana, pois está repleto de verdade e alegria que, via de regra, andam juntas. Porém essas qualidades devem ser buscadas, não nos são entregues de "mão beijada". Se muitos não percebem diferença entre o Shabat e os demais dias, é porque não as buscam. O ritmo imposto pela sociedade não nos dá tempo para parar e pensar o que realmente devemos fazer em nossas vidas e onde investir nosso tempo. Em meio à correria, devemos achar pontos para parar e reavaliar se o caminho por onde tanto nos apressamos é o ideal, e traçar as estratégias para os caminhos futuros, sempre visando um objetivo concreto. Para isso temos o Shabat, um momento para enxergarmo-nos de um ângulo externo, como um torcedor que assiste o seu time. Assim, podemos ver muita coisa que a correria do dia-a-dia nos obscurece, e chegamos mais perto da verdade e da alegria que são prometidas pelo Shabat. Então nos apartamos do físico para mergulhar no espiritual. Para isso, buscamos um ambiente tranqüilo que é desejado para todos através da famosa saudação "Shabat Shalom"?
Rony Dayan
Bibliografia:
Kaplan, Arieh, "Shabat, dia de eternidade",
Revisão: Rabino Tawil |