SHABAT
UM DIA DIFERENTE


Foto: divulgação.

O judaísmo é um código de lei extremamente complexo, em que muitos de seus preceitos são incompreensíveis pela mente humana e outros exigem um grande esforço intelectual para se começar a compreendê-los.


Edição 29 - Junho de 2000
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Vamos aternos a um preceito que todos conhecem, alguns cumprem e sobre o qual outros tentam aprofundar-se: O Shabat.

O que faz esse dia ser tão comentado, estudado, com uma enormidade de livros que discutem suas leis? Não deveria, afinal, ser um simples dia de descanso? Não seria mais fácil pegar o carro, ir para a praia e deitar-se numa esteira, curtindo o som de um walkman?

A observância das leis da Torá não é uma privação de prazeres, mas é um prazer ainda maior de agir convictamente, pensando na finalidade de tudo o que se faz.

Em geral, as sociedades utilizam a repetição de eventos da natureza para organizar-se no tempo. Os calendários têm essa função e se utilizam desses eventos, como a posição da lua, das estrelas, do sol, e até o comportamento dos animais, que se repetem, em dadas freqüências, como referencial. Assim, aproximadamente, a cada 365 dias e um quarto temos o primeiro dia de inverno, a cada 29 e meio, uma lua nova, e assim por diante...

Como exemplo, o calendário gregoriano, que é baseado na posição da Terra em relação ao Sol, o muçulmano, baseado na posição do sol em relação à lua (calendário lunar), e o chinês e judaico, baseados tanto no ciclo solar como lunar. Portanto, os dias, meses e anos, não importando a cultura, baseiam-se na posição de algum astro com relação a outro no sistema solar.

O interessante é a análise da semana. Não há absolutamente nenhuma indicação física no universo de um período repetitivo de sete dias. No entanto, todas as civilizações do mundo adotam esse intervalo como divisão no seu calendário e principal referência para organização de suas tarefas.

Para explicar esse fenômeno, precisaria ultrapassar o limite da matéria. Esse intervalo existe em decorrência de fatores que acontecem em uma freqüência de sete dias, tendo um caráter espiritual. Entenda-se por espiritual eventos que não são perceptíveis aos cinco sentidos humanos. Um exemplo disso seria o pensamento, nós não podemos vê-lo, ouvi-lo, tocá-lo, cheirá-lo, nem degustá-lo.

A referência aqui é, claro, ao Shabat. De fato, todas as sextas-feiras, a partir do pôr-do-sol, todo judeu é presenteado com uma ampliação de seu ser; à nossa essência é agregada uma dose extra de espiritualidade, que nos é removida ao escurecer do dia seguinte.

A base bíblica para o Shabat se apóia nos sete dias da criação do universo, que correspondem aos sete dias universais que compõem a semana, e que são inexplicados em termos físicos.

Segundo a Torá, D'us criou o universo em seis dias e descansou no sétimo. Baseando-se nisso, o judeu trabalha seis dias da semana e dedica o sétimo ao descanso. Há, porém, algumas contradições, muito provavelmente criadas por nossa supervalorização dos meios, e não dos fins. Se o Shabat fosse um dia que devêssemos dedicar exclusivamente ao descanso, por que a Torá e os grandes sábios proibiram-nos de andar de carro para andarmos a pé, ou de subir de elevador para subirmos de escada? Essa pergunta já deve ter sido feita por um grande número de judeus. A resposta é que o Shabat não é um dia que devemos dedicar ao descanso. Isso o colocaria sob a simples condição de meio para que pudéssemos ganhar forças para o resto da semana. Porém, o Shabat não é um meio, mas um fim em si mesmo. É mais válido dizer que trabalhamos durante a semana para condecorar o Shabat.

Uma outra contradição se apóia no fato do princípio de nossa fé de que o Criador é perfeito, ou seja, que não necessita de nada para cumprir sua tarefa. Então por que precisaria descansar, se sabemos que Seus poderes são infinitos?
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