O Talmud, ao ser redigido, codificou os hábitos que haviam sido estabelecidos ao longo das gerações. A lei talmúdica estabelece que quando um homem e uma mulher decidem casar-se, ele precisa dizer-lhe que ela passa a ser sua esposa. Ela, por sua vez, deve aceitar de livre e espontânea vontade. Tal ato deve ser realizado diante de duas testemunhas válidas, mediante uma das formas aceitas pelo judaísmo para se contrair matrimônio, entre as quais, a entrega simbólica de uma soma em dinheiro, uma garantia escrita ou através do Kidushei Biá, ou Matrimônio por Cohabitação. Neste último caso, a cerimônia terminava com a mulher entrando na tenda do marido, ato que marcava o início de uma vida em comum. As duas últimas formas de contratar casamento não são mais usadas.
Na época talmúdica o casamento era feito em duas etapas. A primeira era a promessa ou "noivado" - em hebraico, erussin ou kidushin. Era de fato um compromisso moral, que podia ser revogado por uma das partes. Possuía praticamente a validade do matrimônio, mas não concedia direitos aos envolvidos. Era também chamado de kidushin (consagração ou dedicação) pois era, de fato, quando a noiva era "prometida" ao noivo.
No ato do noivado, o homem entregava à futura esposa um presente cujo valor devia ser maior do que uma moeda. A partir do século VII o presente foi substituído por um anel sem pedras preciosas. Este era colocado pelo noivo no dedo indicador direito da noiva, depois da prece recitada por um oficiante, dizendo: "Harei at mekudeshet li, betabaat zu kedat Moshe ve-Israel" (Eis que me és consagrada por esse anel, segundo a lei de Moisés e Israel). Ao colocar o anel no dedo da noiva, o rapaz efetivava seu vínculo com ela.
Algum tempo após o noivado, a cerimônia de casamento, propriamente dita, em hebraico nissuin, era oficiada sob a chupá, na presença de duas testemunhas competentes com a recitação das sete bênçãos tradicionais - Sheva Brachot. A cerimônia era realizada sob a chupá, o pálio nupcial, simbolizando o lar do novo casal e "cobrindo" ou protegendo-o nesta fase abençoada e sagrada de sua vida. Este "lar" simbólico, a chupá, é o que permite que a cerimônia seja realizada em qualquer lugar.
Desde o século XVI, as duas etapas do matrimônio erussin / kidushin e o nissuin - são realizadas sucessivamente, durante a celebração do casamento, como conhecemos hoje, apesar de continuarem sendo dois atos distintos. A ketubá, o contrato de casamento, é mencionado ou lido entre as duas etapas da cerimônia.
A cerimônia
A primeira parte do casamento judaico - o kidushin - inicia-se com uma bênção sobre um copo de vinho. É uma bênção de agradecimento e louvor ao Criador, que proporcionou a santidade do matrimônio. E ao pronunciá-la, atrai-se as bençãos Divinas sobre essa união. Tanto o noivo como a noiva bebem deste vinho. Todas as bênçãos durante o casamento são feitas sobre o vinho, pois este simboliza a vida.
A entrega da aliança pelo noivo e a sua aceitação pela noiva constitui o ato central do kidushin, efetivando o vínculo entre os dois. O noivo recita a frase que legitima o casamento - "Com este anel te consagro a mim, conforme a lei de Moisés e de Israel", que vimos acima, em hebraico. Em seguida, diante de duas testemunhas, coloca uma simples aliança de ouro no dedo indicador direito da noiva. Depois é feita a leitura ou menção da ketubá, conforme os hábitos de cada comunidade.
O próximo passo da cerimônia é Nissuin, quando são novamente recitadas as sete bênçãos sobre um cálice de vinho, enaltecendo e agradecendo a Dus por Suas obras: a criação do ser humano e por ter criado o homem como uma criatura composta de duas partes - homem e mulher. Abençoa-se o casal para que juntos possam ter alegrias, assim como o tiveram Adão e Eva no Jardim do Éden. As berachot santificam os noivos para que o amor entre eles seja tão permanente e indestrutível quanto o amor de Dus para com Israel. Após as bênçãos, o noivo e, em seguida, a noiva, bebem outro cálice de vinho.
Na conclusão da cerimônia é costume o noivo quebrar um copo envolto em um pano. Este gesto serve para recordar a destruição do Templo de Israel. Em algumas comunidades é também interpretado como um sinal de bom augúrio. É o momento em que a solenidade e santidade do ato parecem aliviadas, com as manifestações dos presentes, alegremente fazendo votos de mazaltov , e que descontrai a natural tensão dos noivos, ao chegar o tão ansiado momento de consolidarem o seu amor, "consagrando-se um ao outro" diante de D´us e de sua comunidade.
Ketubá
A ketubá é um contrato matrimonial que confirma legalmente o casamento e especifica as responsabilidades do marido pela esposa. Foi idealizada há mais de 2500 anos por nossos sábios para, através de uma legislação específica, proteger a mulher e seus direitos em uma época na qual ela era considerada, entre outros povos, "propriedade do marido", ou "um ser sem direitos". |