"O trauma da Segunda Guerra Mundial deu nova vida ao projeto de Birobidjan, como aconteceu com a cultura e a sociedade judaica soviética, em geral. O fim das hostilidades em 1945 viu o ressurgimento da migração judaica para a "Sion Soviética, diz Weinberg em seu trabalho. A tolerância, no entanto, não chegava ao ponto de permitir a emigração dos sobreviventes do Holocausto para Eretz Israel. Para eles, a Região Autônoma surgia, então, como a melhor alternativa.
Asya Gurevich, 80, ex-residente da Belarrússia, foi uma das pessoas que foi para Birobidjan. "Fomos recebidos por um oficial que nos deu as boas-vindas, o que nos transmitiu muita segurança. No início enfrentamos o problema do racionamento de alimentos, o frio e outros, mas nos sentíamos salvos". Mikhail Kul foi outro que se mudou para a região após a Segunda Guerra Mundial. Artista amador, uniu-se a um grupo musical que fazia apresentações em fábricas, campos de trabalho e fazendas, até começar a trabalhar em uma biblioteca. Era lá que se encontrava quando os novos expurgos anti-semitas de Stalin foram realizados, em 1949. Kul recebeu a ordem de destruir mais de 30 mil obras judaicas. As escolas ídiches foram fechadas e os líderes da comunidade acusados de serem sionistas e, portanto, expurgados. Os escritores ídiches da região foram presos e enviados para o Gulag.
"Houve uma geração de pessoas que não conheceu a sua língua ou sua cultura ancestral", afirma Dmitrenko. O Die Birobzhaner Stern foi o único órgão judaico que Stalin sequer pensou em fechar, mas um jornal em ídiche tornou-se uma anomalia em uma região de influência russa cada vez maior. Com a chegada de Mikhail Gorbachev ao poder, na década de 80, e a implantação de sua política de abertura, conhecida como Perestroika, o jornal começou a ser publicado em russo e agora edita algumas páginas em ídiche, duas vezes por semana.
Nos últimos anos, vem aumentando o interesse dos moradores de Birobidjan por suas raízes judaicas. Os estudantes começaram a ter aulas de hebraico e ídiche em uma escola judaica e na universidade da região. Em 1989, o Centro Judaico fundou uma escola para crianças, que funciona aos domingos na qual são ministradas aulas de ídiche e hebraico, de danças folclóricas judaicas e história de Israel. O governo israelense patrocina este programa. "Foi o primeiro passo para a restauração da cultura judaica na Região Autônoma", disse Albina Sergeyeva, diretora do Centro.
Atualmente as autoridades da região autônoma comemoram as festividades judaicas na Casa de Cultura. Há também clubes judaicos e distribuição de refeições para idosos. De certa maneira, a região possui uma imagem judaica. Inúmeros habitantes estão reivindicando sua origem como judeus. "Pessoas que se mantiveram silenciosas por anos estão agora afirmando ter judeus entre seus ancestrais", diz Sergeyeva.
Por uma dessas ironias do destino, a nova liberdade vigente em Birobidjan, o ressurgimento do judaísmo e o fortalecimento dos laços com Israel aliados à crise econômica que aflige a população, estão levando os judeus para Israel em busca de uma vida melhor. Ou seja, o renascimento de Birobidjan como centro judaico poderá também levar ao seu desaparecimento, pois grande parte da população já fez aliá. "Este não é o nosso lar. A única razão pela qual ainda estou aqui é a sinagoga. Não posso abandoná-la. Esta é uma comunidade pequena e uma vez que todos tenham partido, eu poderei partir também", diz o assistente de rabino Boris Dov Kofman, de 50 anos. |