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| APESAR DE TUDO HÁ JUDAÍSMO NA POLÔNIA |

Participantes da Marcha da Vida em Auchwitz.
Entre as pessoas com as quais comentei que iria passar uma semana na Polônia, recebi a resposta quase unânime: "Eu não iria!". Não me surpreendi com tais palavras, pois também pensava assim até pouco tempo. Afinal, apesar de ser filho e neto de judeus poloneses, que chegaram no Brasil no início dos anos 20, minhas únicas referências sobre a Polônia eram: medo e ignorância.
| Edição 29 - Junho de 2000 |
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A História do judaísmo polonês tem início no século XIV com o rei Kazimiersz, o grande. Durante séculos, os judeus viveram em harmonia, fincando raízes e preservando suas tradições. Mas, seis anos de guerra e quase tudo foi destruído. Hoje, mais de meio século depois do final da II Guerra Mundial e com a abertura do Leste europeu, pode-se redescobrir aquela que foi a maior comunidade judaica da Europa.
Sempre que perguntava a meu pai sobre a Polônia, a resposta era a mesma: "Não quero falar sobre este assunto". Já meu avô materno dizia: "Um dia conto". E nunca contou. Anos depois descobri que ele tinha perdido uma irmã durante o Holocausto. Ela ficara na Europa, pois os pais não permitiram que ela viajasse sozinha para o Brasil. Ela não conseguiu se salvar, transformando-se em mais uma das vítimas do nazismo.
O primeiro contato que tive com a Polônia fora do ambiente familiar, aconteceu no início dos anos 70. Fiquei muito satisfeito ao saber que iriam passar um filme no auditório do Colégio Renascença seguido de uma palestra. Aquele não foi um dia qualquer, marcou a minha vida e de todos os amigos de minha classe. O filme era sobre as atrocidades em Auschwitz e a palestra foi proferida por um sobrevivente dos campos de concentração. Ele iria lançar um livro de testemunho sobre os fatos que presenciara e aos quais conseguira sobreviver. Seu nome é Ben Abraham. Acredito que, naquele dia, parte de minha fé e espiritualidade se perdeu.
Quando participei da reunião de preparação para a viagem à Polônia, com mais vinte brasileiros, perguntaram-me qual era meu objetivo. Respondi que, talvez na Polônia, eu pudesse resgatar a espiritualidade e a fé que ficaram perdidas há tantos anos naquele auditório do Renascença.
Chegamos a Varsóvia e fomos direto para o cemitério judeu. Uma maneira bem triste de começar uma viagem. Conforme andávamos pelas alamedas e passávamos pelos túmulos, a cada parada, Rachel Orenstajn do Yad Vashem, nos conta a vida de cada uma daquelas pessoas que ali fora enterrada. I. L. Peretz, Bialik, uma grande atriz de teatro, o inventor do esperanto, um grande rabino, nomes bem familiares, que com certeza, estão gravados nas matzeivot em São Paulo. A visita foi terminando e descobrimos o quão rica e viva fora a comunidade judaica de Varsóvia.
Todos os participantes da Marcha da Vida - cerca de sete mil pessoas - encontraram-se em Auschwitz para uma caminhada de quatro quilômetros em direção ao campo de Birkenau, onde aconteceria a cerimônia principal, com a presença do presidente de Israel, Ezer Weizman.
Os discursos seguem o cerimonial. Primeiro falou o presidente polônes, depois o israelense e, por fim, o representante do comitê organizador da Marcha da Vida Mundial. No palanque, muitas pessoas e um rosto familiar de um homem religioso.
Ele é o ultimo a se pronunciar. Conta que é um sobrevivente de Buchenwald e, emocionado, narra as palavras de seu irmão: "Você agora não tem mais pai, nem mãe. Daqui a pouco, você não vai ter seu irmão mais velho, que esta partindo neste trem. Se um dia, por milagre, você sobreviver a esta tragédia, saiba que você só tem Eretz Israel."
E continua: "Sabem, concordo com estes revisionistas - Irwing e seus colegas. O Holocausto não matou seis milhões de judeus. Acredito que o Holocausto matou seis milhões de judeus fisicamente, mas matou também outros milhares espiritualmente". |
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