Existem também amizades perversas, pois está dito: "És amigo daqueles que são destrutivos" (Provérbios). Estas não visam o crescimento do amigo. Apenas lhe servem de cúmplice nas ações condenáveis, sem lhe prestar a mínima ajuda para que viva sua verdadeira dimensão interna.
A essência do homem está em seu intelecto, na sua mente - no seu pensamento, na neshamá, a parte de nossa alma ligada com o Divino. E isto salienta o fato de que a condição autêntica da amizade tem relação estreita com nossa mente.
O Talmud ensina: "Quando você abandonar um amigo"... Mas será que realmente abandonamos um amigo? De forma alguma! Nem em sonho! E segue o Talmud: "... separe-se, mas só se o propósito for um problema intelectual não resolvido". Querendo sua presença, seu amigo repensará sobre tal divergência e, assim, estará pensando em você. Isto irá uni-los numa cumplicidade definitiva. No ápice da separação, a esperança de um dia poder reencontrar o amigo para confidenciar um com o outro, cada um participando ao outro suas importantes descobertas, elevará o nível do vigor intelectual compartilhado. Pois está escrito: "Um homem afia a mente de seu amigo " (Provérbios 27:17).
Para entender a verdadeira dimensão da amizade é importante analisar-se a palavra melech, rei, em hebraico, composta das letras mem, lamed, e caf. Estas letras constituem a plena definição do homem: mem, da palavra moach, cérebro, inteligência; lamed, de lev, coração, sensibilidade; caf - de caved, os sentidos. Estes três conceitos correspondem aos três níveis de alma do homem: a neshamá, que tem como característica o pensamento, a compreensão superior; ruach, onde se alojam a emoção e nefesh, os instintos. A verdadeira liberdade é alcançada quando estes três níveis da alma do homem atuam em equilíbrio.
E, quando o ser humano alcança a plenitude nessas três esferas, tem perfeita consciência da hierarquia dos níveis do ser - ele é um rei, a quem se aplicam os mandamentos próprios dos reis. Os reis têm 30 privilégios, entre os quais a extraordinária felicidade de ter o direito de romper qualquer "barreira". Por isso o Talmud afirma que o verdadeiro amigo liberta o outro de todas as suas prisões internas, ao lhe abrir as portas de um universo de pura liberdade.
Por outro lado, o homem que vive aquém de sua plenitude - talvez por não ter um amigo que lhe exija seu desempenho máximo - é apenas um escravo, ao qual se aplicam todas as leis dos escravos. Vive "pobremente", preso a limites que não consegue superar. Apesar de lhe parecer muitas vezes ter uma vida muito louvável, esta vida, na verdade, anula-o.
A amizade é acima de tudo uma relação do intelecto. Juntos, os amigos vivem a mais audaciosa experiência intelectual. Pouco importa se um deles não compreende uma verdade; o outro a explicará, pouco importando também qual dos dois a entende ou deixa de entender.
A palavra moach, que designa a inteligência (literalmente, o cérebro), contém 48 facetas segundo o valor numérico de suas letras. Este número representa as 48 prerrogativas do sábio, de acordo com o Pirkei Avot, a Ética dos Pais. Quando é dito que "lhe são revelados os segredos da Torá", a quem mais isto se referiria, senão ao amigo? Se o ser humano vive a plenitude do seu ser, no nível da alma que D´us lhe deu, ele é um sábio, desde que um amigo lhe indique todos os novos atributos que deve adquirir.
Essa análise da primeira dimensão do homem - a inteligência - coloca a amizade no seu nível essencial, o da comunicação.
A segunda dimensão do homem é sua sensibilidade, seu afeto, seu coração. O Pirkei Avot nos alerta que um bom coração é o que o homem deve permanentemente procurar, já que é o recipiente de todas as qualidades.
Um amigo não esmaga o outro por suas diferenças. Da forma mais gentil e hábil leva este outro a entender o que tem a lhe dizer. A sensibilidade está no mesmo nível da inteligência e estabelece o laço entre o conhecimento e o amor.
A terceira dimensão é a dos sentidos, transfigurados pela inteligência e sensibilidade, nessa fecundação de todos os níveis que definem o homem. Como a sensibilidade participa da ambição, que é um desejo como qualquer outro, um amigo pode muito bem intervir sobre a personalidade do outro, como nos dois outros níveis do ser, através de seu olhar lúcido e sincero.
A relação de amizade implica confiança, reciprocidade perfeita, sem que se façam contas. Um poderá ser mais forte que o outro, ou um poderá contar com o outro, depender do outro, mas deverá sempre haver reciprocidade. Os amigos devem "poder encostar-se um no outro", contar com o outro. A Torá diz que "Dois é melhor do que um, pois se um fraquejar, o outro o erguerá. Mas sofra pelo que estiver só, pois ao cair, não terá quem o reerga". (Eclesiastes 4:9-10). |