Mas, vendo que nada havia conseguido, percebeu que essa era sua única chance de sobreviver. Tomou então a decisão e com o resto do dinheiro que havia sobrado, resolveu ir procurar o Rabi cujo nome constava em um dos envelopes.
Ao chegar à casa do Rabi, foi por este atendido por comiseração, tal o seu aspecto. Mal vestido, de cor pálida, cabelos amarelos esbranquiçados, postura de fraqueza e humildade, olhos mal levantando-se do chão, ombros arqueados e pequenos, mais parecia um personagem de ficção.
Diante de tal quadro, o Rabi disse-lhe: "Entra, vejo que estás cansado, come e bebe alguma coisa." Sem dizer uma palavra, o homem comeu pão, tomou vinho e, por fim, entregou ao Rabi um envelope onde só constava o nome Rabi Eliezer Abramov. Enquanto o Rabi, curioso, procurava o remetente, o camponês permaneceu mudo. Ao ser inquirido, disse: "Estou cansado!" O Rabi então, ávido, abriu o envelope e começou a ler sobre a interpretação do Zohar.
À proporção que lia, o Rabi se transformava, sua fisionomia ficou séria, seus olhos corriam pelas páginas com um interesse e uma velocidade jamais vistos. Seu rosto se iluminava, suas mãos seguravam as páginas, como que para impedir que fugissem e foi quase que inconscientemente sentando-se. A cada linha, sua cabeça meneava para a frente como sinal de concordância com o que lia. Ainda assim, num gesto ameno, olhou para o homem como se olha para alguma coisa impossível. Gentil e carinhosamente, disse-lhe:
- "Senhor, gostei muito do que está escrito nestas páginas. Desejava ter um tempo maior para examiná-las. Fica comigo, sê meu hóspede, terei muita honra em tê-lo em minha casa. Por favor, façei esta mitzvá, não precisa dizer-me nada. Você será meu hóspede de honra. Por favor, aceite! Já vi que não gosta de conversa, só fale comigo quando quiser!" O camponês, que mal sabia falar, lembrou-se do conselho do chacham e simplesmente acenou com a cabeça, embora ainda não tendo entendido as ordens do Rabi, seu antigo patrão.
Deste modo, instalado confortavelmente, com boa alimentação, ficou hospedado na casa de Rabi Eliezer. Este, estava fascinado pela sabedoria dos escritos que lia.
Os ensinamentos do Rabino eram cheios de chochmá, sabedoria, e humanismo. Passados muitos meses, o campônio resolveu voltar à cabana do falecido para ver como estava tudo. Comunicou então ao seu anfitrião esse desejo. Preparou a viagem do seu hóspede, deu-lhe transporte, alimentos e algum dinheiro. Porém, fez com que o homem prometesse que voltaria o mais depressa possível.
Ao chegar à cabana, o camponês viu que tudo estava bem e em seu lugar. Após alguns dias, voltou à cidade e foi direto à casa do seu anfitrião. O Rabi, exultante, recebeu-o festivamente e então, após alguns minutos de descanso, o camponês tirou de uma bolsa de couro um novo envelope, sem assinaturas, com novos pensamentos talmúdicos. Desta vez, porém, o número de folhas escritas era menor, pois, apesar de sua ignorância, ele era fiel às ordens que o falecido patrão lhe havia passado, no sentido de que entregasse aos poucos os escritos. Assim, compreendeu que esse comportamento lhe garantiria a sobrevivência. Como havia muitos escritos, ele iria aos poucos entregando-os ao Rabi. Enquanto isso, o Rabi, feliz e satisfeito com a evolução dos seus conhecimentos advinda dessa leitura, e com receio de interromper esta fonte maravilhosa de saber e religiosidade, tratou de agradar o campônio ao máximo. Deu-lhe criados, uma boa casa, alimentava-o do bom e do melhor. Além disso, por razões éticas e respeitosas, nunca perguntou ao campônio se era ele mesmo o autor daquelas verdadeiras obras divinas. Não ousava sequer comentá-las para não magoar o silencioso campônio.
Assim, passaram-se os anos e aquela coletividade judaica enriqueceu-se de conhecimentos e sabedoria. O camponês, bem-aventurado, viveu feliz por muitos anos, até que a morte levou seu anfitrião, o Rabi Eliezer. Como o Rabi Eliezer era solteiro, deixou para o camponês todos os seus bens. O que lhe assegurou viver em segurança até o fim dos seus dias.
Foi então, que o campônio, ao visitar a cabana, remexendo os escritos deixados pelo sábio, encontrou e releu o bilhete, onde estava escrito, como numa profecia: "Tu me ajudaste hoje e eu te ajudarei depois da minha morte. Entrega estes papéis lentamente, de pouco em pouco, e não digas uma palavra sobre eles".
O camponês apanhou o bilhete que estava sobre os papéis e entre soluços pegou o papel amarelado pelo tempo e como se fosse uma jóia, guardou-o dentro de um livro de rezas.
Deu alguns passos, pois havia deixado a porta aberta e entreveio um vento sonoro, frio e impertinente. Voltou-se para fechá-la, quando lhe pareceu ouvir, na voz do vento, a fala do falecido chacham, rindo e dizendo: "Viu?"
Aturdido e confuso, o camponês caiu por terra, fechou os olhos e disse a única coisa que sabia em hebraico:
- BARUCH ATÁ ADO-NAI ELO-HENU MELECH HAOLAM.
David José Amar é advogado e colaborador do boletim
"Shel Guemilut Assadim" e da revista "Menorah" |