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Por David José Amar.
Esta é uma história que deve ser somada ao vasto repertório da vida cultural judaica, tão rica de casos e crônicas que vieram somando-se através dos anos, para se constituírem em uma vasta fonte de informações de outras eras.
| Edição 29 - Junho de 2000 |
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Trata-se de um fato passado na vida de um homem santo, um sábio, profundo conhecedor das Leis do judaísmo e, sobretudo, um cirurgião da alma e do comportamento humano, nos quais mergulhava soberano, dissecando e construindo os tecidos frágeis desse emaranhado desconhecido por nós, homens comuns.
Em uma pequena cidade da Polônia, onde a comunidade judaica era proporcionalmente grande, moravam três grandes tzadiquim, que entre si trocavam ensinamentos sobre o Tanach (Torá, Neviím e Quetubim). Procuravam sempre obter proveito máximo desses textos (os livros da Lei, dos Profetas e das Escrituras), os quais, através de uma interpretação inteligente e meditativa, transmitiam aos judeus da terra, fazendo-os compreenderem-nas.
Havia, entretanto, dentre eles, um gênio que se chamava Itzaac Kragemberg, um verdadeiro chacham, estudioso por excelência do Zohar, obra fundamental da Cabalá, na qual procurava a razão de ser das coisas.
Carente de um silêncio onde pudesse meditar, embrenhou-se em uma floresta, para morar numa humilde cabana. Passava seus dias e noites meditando, escrevendo e contemplando a natureza. Com o passar do tempo, esquecido dos prazeres terrenos, pouco se alimentava, dormia mal e definhava fisicamente. Um dia, ao buscar água no poço, desfaleceu e ficou ali caído por algum tempo, exposto às intempéries, ao frio e à chuva, até que casualmente passou um camponês judeu, pobre e ignorante. Este, ao vê-lo naquele estado, amparou-o, levou-o para a cabana, deu-lhe alimento, água, agasalhou-o e cuidou dele durante vários dias, até que o chacham pudesse se levantar e fazer as coisas sozinho. Tal foi a dedicação do camponês, que o tzadic, sensibilizado e agradecido, pediu-lhe que ficasse em sua cabana mais alguns dias, para ajudá-lo nas coisas da casa e para lhe fazer companhia, pois ainda se sentia muito fraco. Para o homem, esse era um presente de D'us, pois iria ter casa, comida e tranqüilidade. Por seu modo, o campônio quase não falava. Limitava-se a ouvir e cumprir ordens, fazendo o serviço pesado, cozinhando e limpando a cabana. O silêncio permanente do campônio era o ideal, pois o tzadic passava as horas absorto em sua meditação, fixado no estudo do Tanach e principalmente em pesquisas do Ticum-Lêil-Shavuot, do qual era profundo conhecedor. Assim, passaram-se os meses. O Rabi escrevia e pensava, não mais se preocupando com a arrumação, comida e limpeza. O silêncio entre os dois era o melhor diálogo possível, cordial e rápido. Entretanto, o tzadic sempre dizia ao camponês:
- "Não esquecerei o que fizeste por mim!"
Afinal, passados alguns anos, já velho, morreu o tzadic. O ritual de sua morte foi fielmente obedecido pelo campônio, conforme orientação escrita deixada pelo rabi Itzac, inclusive proferindo o Shemá. Após o falecimento do tzadic, o campônio ficou triste e desamparado. Analfabeto, sem saber o que fazer da vida, foi arrumar a volumosa quantidade de escritos deixada pelo Rabino. Para surpresa sua, os pacotes estavam amarrados em pequenos volumes separados e em cada um deles havia um bilhete endereçado a um determinado Rabi, entre os que moravam na cidade. Havia ainda um segundo bilhete endereçado ao camponês, onde com letras grandes estava escrito "Tu me ajudaste muito, devo-te a vida. Mas eu te ajudarei depois de morto. Faze o que digo: Entrega cada envelope destes, muito espaçadamente, deixando passar muito tempo entre cada entrega. Isto deve levar anos. Não dês uma palavra sobre eles. Obedece-me e serás feliz para sempre. Não fale!! Não fale!!" E trazia a assinatura do Rabi Itzaac Kragemberg.
Diante do estado de penúria em que se encontrava, quase sem ter o que comer e sem rumo na vida, o camponês lembrou-se então de fazer a entrega ao destinatário de um desses envelopes endereçados, conforme o sábio falecido havia recomendado. Como na sua estreita visão entendia que seria perda de tempo ir à cidade para procurar um religioso (os camponeses de sua aldeia não gostavam dos religiosos), pois geralmente estes não têm dinheiro, são estudiosos, não se preocupam com os bens terrenos, o homem demorou-se a ir à cidade para cumprir as ordens do falecido. |
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