|
|
| OS VENDEDORES DE MENTIRAS E OS HOLOFOTES |

Foto Ilustrativa
Há pseudo-intelectuais que chafurdam ininterruptamente em busca dos holofotes da fama. Montam, em sua paranóica corrida por reconhecimento e evidência, teorias estapafúrdias, vendidas com um lustre artificial de "cientificismo".Nessa selva de invencionices, destaca-se o "revisionismo histórico", que busca negar a ocorrência do Holocausto ou diminuir as dimensões de uma das maiores barbáries jamais cometidas pelo ser humano, e que encontra hoje no britânico David Irving, um suposto historiador, o seu principal showman.
| Edição 28 - Abril de 2000 |
|
|
 |
David Irving não se esforça para, ao menos, jogar uma cortina de fumaça para esconder sua torpe estratégia. Serviçal do neonazismo, ele procura fama, corre atrás de autopromoção como um site da Internet busca pageviews e audiência. Para continuar no mundo da rede de computadores - um pa-raíso para os revisionistas dada à liberdade que ela proporciona -, é curioso checar a página de Irving. Lá, ele coleciona todas as menções a seu respeito que pululam na imprensa mundial, muita delas com referências desairosas ao pseudo-historiador. Mas isso não importa para ele. O que Irving ambiciona captar é o interesse da mídia, de preferência da grande imprensa, acreditando que sua "mensagem" poderia assim contaminar um número maior de desavisados.
A lógica irvinguiana traçou, no começo do ano, nova estratégia para roubar linhas dos grandes jornais ou minutos das rádios e TVs. Iniciou um processo, dizendo-se vítima de calúnia, contra a historiadora americana Deborah Lipstadt, autora do livro "Denying the Holocaust - the growing assault on truth and memory"" (Negando o Holocausto - o crescente ataque à verdade e à memória). Lipstadt, em livro publicado no já quase longínquo 1993, enumera, entre outras coisas, atividades de um militante que certa feita se definiu como o responsável pela "Intifada de um homem só contra a história oficial do Holocausto".
Lipstadt prefere desenhar outra definição para Irving. Qualifica-o de "um dos mais perigosos porta-vozes do revisionismo histórico" e, sabiamente, evita entrar em polêmicas diretas com esses pseudo-historiadores. A professora da Universidade de Emory, em Atlanta, afirma não querer conceder-lhes um "reconhecimento intelectual"ao aceitá-los como interlocutores.
Irving mostra-se de tal maneira prolífico que, tivesse seu trabalho algum valor intelectual, despontaria como um gênio mundialmente reconhecido. Já publicou cerca de 30 obras e enveredou pela trilha do revisionismo em livros já no ano de 1977, com o lançamento de "Hitler's war" (A guerra de Hitler), um calhamaço de 900 páginas arquitetado para contar a história da guerra "pelos olhos do ditador". O corolário que Irving sugeria em sua peça: o líder nazista nem ordenou nem sabia da política conhecida como "Solução Final".
Acompanhar a "evolução" dos trabalhos de Irving demonstra sua confusão mental. Após a tese alinhavada em "Hitler's war", ele passa a negar totalmente a existência do Holocausto e, no livro "Goebbels: Mastermind of the Third Reich" (Goebbels: o mentor do Terceiro Reich), não faz menção às câmaras de gás de Auschwitz. Refere-se à fábrica de extermínio como um "campo de trabalho escravo" com a "mais alta taxa de mortalidade".
Comentários do gênero "as câmaras de gás de Auschwitz foram construídas como atrações turísticas depois do fim da guerra" valeram várias sanções a Irving, a exemplo da proibição de entrar na Alemanha. A estratégia adequada para lidar com esses vendedores de mentiras é buscar fechar os palanques onde os revisionistas possam tentar propagar suas falsificações. Afinal, neste caso não se trata de cercear a liberdade de expressão, como busca fazer crer David Irving, mas de proteger os direitos dos consumidores de acesso a informação verdadeira. E trata-se, acima de tudo, de defender a memória daqueles trucidados pela barbárie nazista. |
 |
|