CABALÁ E MISTICISMO
O RESSURGIMENTO DO MISTICISMO


Zohar: o livro do resplendor.

Até pouco tempo atrás parecia que o racionalismo e a modernidade haviam enterrado para sempre o misticismo judaico. Até a geração passada, era visto como uma doutrina esotérica, um tema reservado à elite espiritual e intelectual, apenas nos círculos chassídicos e sefarditas havia sábios ou estudiosos da Cabalá.


Edição 28 - Abril de 2000
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Este panorama mudou totalmente na atualidade e o misticismo judaico está renascendo de forma surpreendente. O estudo da Cabalá tornou-se, entre outros, um instrumento poderoso para atrair ao judaísmo aqueles que estão afastados e que vêem nesta a resposta para muitas perguntas, além da possibilidade de um crescimento interno.

Porém cabe aqui um alerta contra os que ensinam sua doutrina fora do contexto da Lei Judaica. A Cabalá representa a "alma da Torá", ela ensina o "significado cósmico" dos mandamentos divinos, das mitzvot. O rabino J. Immanuel Schochet – cabalista, professor de filosofia da universidade de Toronto e autor de inúmeras obras sobre assuntos místicos – afirmou recentemente em entrevista ao Jewish Chronicle de dezembro: "Se ela for afastada de seu sentido religioso, se perder sua ancora que é a Torá, corre o risco de transformar-se em uma espécie de auto indulgência".

Inúmeros adeptos

Uma vasta gama de judeus de todas correntes, origens e idades, em Israel e na Diáspora, estudam os ensinamentos místicos da Cabalá. Alguns a consideram como a forma de acelerar a redenção do mundo e a vinda do Messias. Outros com uma mente mais voltada à ciência, estão literalmente fascinados com a profunda conexão que há entre a Cabalá e a ciência contemporânea, em particular à física. A afirmação de Einstein de que toda matéria é uma forma de energia se aproxima de forma espantosa à idéia luriânica (do Rabbi Itzac Luria) segundo a qual qualquer realidade é resultante de formas diferentes de manifestação da Luz Divina

Nas duas últimas décadas um número cada vez maior de alunos tem-se inscrito nas faculdades em disciplinas relacionadas ao estudo do misticismo judaico. Melilah Helner, que ministra cursos sobre o Zohar – obra principal da mística judaica – na Universidade Hebraica de Jerusalém, fez a seguinte afirmação em uma reportagem publicada em novembro de 1999 na revista The Jerusalém Report:

"Nos últimos cinco anos o número de estudantes inscritos triplicou. Muitos de meus alunos são jovens judeus em busca de espiritualidade. Foram até países budistas ou hinduístas, até o Tibete. Estes jovens estão ‘voltando’ em massa para suas origens". Segundo Helner, estes jovens descobriram que a Cabalá é a raiz de todo o pensamento místico.

Helner conta também que possui muitos alunos seculares inscritos em seus cursos. "Diferentemente de seus pais, que foram totalmente absorvidos pelo ideal sionista e se distanciaram da religião judaica, estes jovens só fazem restrições ao establishment religioso. Para eles, a Cabalá tornou-se uma forma de voltar ao judaísmo, pela ‘porta dos fundos", explica o professor. Acrescenta que mesmo os que vêm de lares onde a ortodoxia religiosa foi mesclada com o nacionalismo sentem a necessidade de resgatar dentro de si o lado emocional e espiritual do judaísmo. Afirmam terem sido criados com muita ideologia, mas pouca espiritualidade.

O interesse pela mística judaica também está crescendo no meio ultra-ortodoxo. O número de livros e de palestras sobre o assunto é centenas de vezes maior do que há 25 anos. Mesmo nas chamadas ieshivot da Lituânia – centros de estudos ultra-ortodoxos cuja posição sempre foi contra os ensinamentos místicos e o chassidismo – está se intensificando o estudo da Cabalá. Regras que restringiam o estudo a homens casados acima de 40 anos não são mais vistas como empecilho. O rabino Tzvi Kushelevsky, um dos líderes da comunidade lituana, explica o fato afirmando: "Os estudantes da ieshivá não vivem isolados num mundo aparte; estão sendo influenciados pelo interesse que a Cabalá tem despertado no mundo, além de também estarem procurando algo que os fortaleça internamente ".
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