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Aparentemente, pareciam muçulmanos perfeitos. Usavam a vestimenta local, davam nomes muçulmanos a seus filhos e compravam carne nos açougues islâmicos. Rezavam cinco vezes ao dia, iam à mesquita construída especialmente para os judeus convertidos e casavam os filhos seguindo os ritos muçulmanos.

Mas era só fachada. Protegidos em seus lares, chamavam seus filhos com nomes hebraicos e doavam a carne comprada aos menos favorecidos. Os judeus "marranos" preparavam suas aves seguindo as regras da cashrut.

As Grandes Festas eram celebradas em quartos secretos, só o shofar não era tocado. Pessach era o verdadeiro desafio, mas de uma forma ou outra os "marranos" de Mashad conseguiam celebrar a festa. As matzot eram guardadas com semanas de antecedências, enquanto continuavam a comprar pão que doavam a muçulmanos pobres.

Casavam os filhos seguindo os ritos muçulmanos, mas em casa o casamento era novamente realizado sob uma chupá. As crianças eram comprometidas desde a primeira infância. Assim, se um pretendente muçulmano se apresentasse, os parentes se desculpavam alegando o compromisso com outra pessoa. Aliás, os filhos destes judeus casavam praticamente na infância, com 10 ou 11 anos.
Os judeus de Mashad eram na maioria comerciantes e tentavam respeitar o Shabat. Apesar de deixarem as lojas abertas ao sábado, tentavam não efetuar nenhuma venda. Pediam aos filhos que avisassem os compradores em potencial que o pai estava doente e não poderia atender. Porém, este estratagema não funcionou, despertando suspeitas entre os vizinhos muçulmanos.

Na esperança de acalmar os muçulmanos que desconfiavam que os judeus estivessem praticando a sua religião às escondidas, e para provar a sua fé na religião muçulmana, os judeus faziam uma peregrinação à cidade santa de Meca, de onde retornavam com o título de Hadj, dado a quem faz a peregrinação.

No Museu de Israel podem-se encontrar o tefilin (filactério) minúsculo que foi usado pelo avô de Efraim, que os escondeu por baixo do turbante em uma visita que o obrigaram a fazer a Meca. Munido de seu tefilin, o avô de Efraim fazia as suas preces em hebraico na presença de milhares de muçulmanos.

Com o tempo, muitos membros da comunidade conseguiram deixar Mashad, alegando uma viagem de negócios ao exterior. Por serem supostamente muçulmanos, tinham a vantagem sobre os outros judeus persas, podendo manter ligações comerciais no exterior. Chegando em Jerusalém, fundaram duas sinagogas no bairro de Purrarim, uma destas intitulada "Adeja Adonyahou Hakohen". Ambas ainda existem.

Mesmo após terem se instalado em Israel, eles preservaram a unidade da comunidade em torno das duas sinagogas, que se tornaram ponto de encontro para os judeus de Mashad, que iam chegando aos poucos.

Em Jerusalém, os judeus oriundos de Mashad ainda mantiveram costumes adquiridos durante sua vida no Irã, quando precisavam manter sua religião em segredo. Por exemplo, acendem velas de Shabat todas as noites da semana. Faziam isso no Irã para não despertar suspeitas às sextas-feiras.

Até 1954 praticamente todos os judeus de Mashad conseguiram sair do Irã. Atualmente há cerca de 16 mil descendentes destes judeus espalhados pelo mundo, nove mil vivem Israel; dois mil em Londres; quatro mil em Nova York; e mil em Milão. Apenas uma família judia vive ainda na cidade iraniana de Mashad.

Bibliografia:

The Jewish People Almanac, David C. Gross, Jerusalem Post, Abril'99
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