Os Chassidim dominam a Hilulá de Rebi Shimon. Em realidade, apossam-se do ambiente. Portões adentro, enchapelados, os homens dançam segurando ombros ou mãos uns dos outros, ou se exibem em passos cadenciados equilibrando à cabeça uma garrafa. Tocam instrumentos de sopro e de corda. Carregam nos ombros os filhos pequenos. No dia de Lag ba-Omer, pela primeira vez, cortam os cabelos dos meninos de três anos de idade. Segura pelo pai, a criança protesta aos berros contra o barbeiro que, com enorme tesoura, corta-lhe os cachos de cabelo, deixando em destaque a mecha dos peiot. Ao mesmo tempo em que os homens celebram o acontecimento na animação dos bailados, as senhoras, carregando cestos, distribuem pãezinhos à assistência feminina.
Enquanto isso, no recinto sagrado onde Rebi Shimon repousa, aglomeram-se os fiéis que lá vão apenas com o fim de o zorear . Tudo é simples e modesto, no local. Não é permitido falar alto, tirar fotografias, acender velas. As velas são atiradas inteiras para dentro do gradil que cerca o túmulo do Tzadik . Das paredes pendem centenas de fitas, ali penduradas lembrando súplicas ou como pagamento de promessas. O rumor nesse local é apenas qual um zumbido. Contígua a essa sala, há um grande espaço cercado de grades, dentro do qual mulheres, sentadas no chão, rezam, lamentam-se ou simplesmente mantêm-se silenciosas em meditação. Não são fanáticas. São criaturas que têm um drama na vida e recorrem a Rebi Shimon Bar-Yochai para que ele interceda junto a D'us. E esperam por um milagre ou pelo menos um consolo.
Para elas, Rebi Shimon deve ser apenas um Tzadik milagroso. Assim como foi sempre para nós. Nunca procuramos saber como escreveu o Zohar, nem tentamos conhecer os caminhos da Cabalá, da qual ele é o grande mestre, nem sequer repetimos suas máximas filosóficas ou investigamos como decorreu sua vida. Para nós, Rebi Shimon era o Tzadik dos milagres, o nosso companheiro de cada instante, o protetor da nossa família.
Nos meus tempos de menina, a Hilulá de Rebi Shimon era a festa mais ansiosamente esperada, a mais brilhante da coletividade de Belém do Pará. Era uma festa de todos, sem seleção. Festa de cada um. Iniciava-se com uma quermesse. As moças preparavam trabalhos artísticos, exibidos como em competição, que eram disputados em lances fabulosos. Não havia uma só pessoa que deixasse de enviar sua contribuição para a Hilulá. Era como um dever sagrado do qual ninguém queria se eximir. E, assim, empilhavam-se dezenas de objetos, os mais valiosos, os mais modestos, conforme as posses e habilidades de cada um, e o resultado de sua venda era distribuído entre os necessitados da comunidade. Era uma Hilulá maravilhosa! |