HILULÁ DE RABI SHIMON


Foto Ilustrativa

Uma verdadeira festa de regozijo judaico. No seu solo, sem o entrave da discriminação, livres, os filhos de Israel podem vozear à vontade. Discutem, gesticulam, falam com euforia.

Edição 28 - Abril de 2000
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Uma das razões que mais me atraía a Israel era visitar o túmulo de Rebi Shimon Bar Yohai. Rebi Shimon faz parte da nossa família, da vida dos judeus sefaradim, provenientes de Marrocos. Crescemos ouvindo seu nome diariamente, a todo instante, entre as mais comuns expressões, em todos os tons de exclamação. Se é um susto, "Rebi Shimon!" Se uma criança corre o risco de cair – "Rebi Shimon!" – e a criança não cai. Nos pesares, nos bons augúrios, em qualquer situação premente, apela-se para ele. Apesar da religião judaica condenar a efígie da figura humana, o suposto retrato de Rebi Shimon sempre ocupa o lugar de honra nos lares, em grandes molduras, nas salas, ou em pequenas, à cabeceira dos enfermos e das parturientes. Como o elixir caseiro, Rebi Shimon é bom para tudo. A única maneira de demonstrarmos nossa gratidão pelas graças que dele recebemos, é prestar-lhe homenagem na sua Hilulá .

Era meu grande desejo participar de uma Hilulá em Israel, onde esta celebração se efetua no próprio lugar em que se encontra o túmulo do Tzadik, como é também chamado por nós, judeus marroquinos. Tive a sorte de realizar esse desejo. O espetáculo que presenciei não somente impressiona, como é único. Embora houvesse recursos para pintar em palavras o colorido, o movimento agitado de peregrinos, o toque religioso, as atividades profanas, faltaria ainda o intraduzível – a emoção que nos domina. Aqui está o nosso Amigo. O nosso eterno Companheiro. Nós o encontramos, enfim, e lhe falamos frente a frente, de alma a alma. É aniversário de sua morte. E, no entanto, é com uma festividade que a data é celebrada. Acontece que esse dia marca também Lag ba-Omer, ou seja, o trigésimo terceiro dia entre Pessach e Shavuot, quando cessou a estranha epidemia que matou milhares de discípulos de Rabi Akiba ben Yossef, o mestre de Rebi Shimon. De qualquer forma, Lag ba-Omer tornou-se feriado, um dia de folga, suspendendo todas as abstenções impostas durante o Omer, o período de luto por aqueles mártires.

Rebi Shimon e apenas mais quatro outros discípulos de Rabi Akiba foram os únicos que escaparam vivos da epidemia, que coincidiu com a época da fracassada revolução liderada por Bar Kochba contra os romanos. Veio a morrer, com idade avançada, justamente num Lag ba-Omer. Da sua vida atribulada, decorrida nos meados do século II na época das perseguições adriânicas, passou 12 anos, em companhia do seu filho Eleazar, oculto numa caverna fugindo a uma sentença de morte. E, por milagre, sobreviveram. Nunca perdeu a fé e nunca se afastou dos livros. Estudar a Torá, no seu ponto de vista, devia ser a obrigação fundamental de um judeu. Conseguiu fundar a Ieshivá de Jerusalém, em Tekoa, e, conforme sonhava, seus restos mortais foram enterrados na Terra Santa.

Rebi Shimon repousa ao lado do seu filho Eleazar, no alto de uma colina em Meron, na Galiléia. Para lá sobem, em Lag ba-Omer, dezenas de milhares de peregrinos. Começam a chegar desde a véspera. Armam tendas onde passam a noite toda, ou ficam mesmo ao relento, cantando e dançando ao redor de fogueiras. Instalam-se em toda a área da colina, de cima a baixo. Muitos vestem roupas típicas do seu país de origem. Organizam feiras onde vendem de tudo, a começar pelo retrato de Rebi Shimon, em todos os tamanhos. Por todo lado há barracas com comestíveis, mesas com pilhas de livros, artefatos de cobre, peças de artesanato. Os camelôs apregoam, aos gritos, suas quinquilharias, e velhos de longas barbas, sentados no chão ao lado de bugigangas, esperam em silêncio que as comprem, por caridade. O vozerio se confunde com o alarido dos alto-falantes e o som estridente de instrumentos musicais. Uma verdadeira festa de regozijo judaico. No seu solo, sem o entrave da discriminação, livres, os filhos de Israel podem vozear à vontade. Discutem, gesticulam, falam com euforia.
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