A PRESENÇA JUDAICA NO BRASIL


Foto Ilustrativa.

Os judeus chegaram junto com Pedro Álvares Cabral. Se não no mesmo navio, na mesma frota. São testemunhas e participantes desta formidável empreitada chamada Brasil. Mas estão ligados aos Descobrimentos antes mesmo de 1500 na qualidade de astrônomos e matemáticos que possibilitaram os feitos náuticos ibéricos.


Edição 26 - Dezembro de 1999
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As duas letras hebraicas abaixo do 500 são a sua representação numérica em hebraico: o Tav e o Kuf. Ultima letra do alfabeto (22ª), o Tav equivale ao nosso 't' e vale 400. O kuf, 19ª letra, tem o som do 'q' ou do 'k', vale 100. Não existem evidências de símbolos aritméticos nas escrituras hebraicas.

O ano de 1500 da E.C. eqüivalente ao 5260 do calendário hebraico é representado pelas letras Reish e Samech. Começou em Setembro de 1499. O dia 22 de Abril corresponde ao 23º dia do mês de Yiar.

A conjunção de letras com números deu origem à Guemátria, fascinante sistema de interpretação hermenêutica, onde uma palavra ou grupos de palavras são avaliadas pelo valor numérico das letras. No caso dos 500 Anos as duas letras constituem apenas uma representação numérica sem qualquer cono-tação subjetiva.

Nos primeiros 250 anos da nossa história formal a presença judaica, embora expressiva, manteve-se na clandestinidade por força dos editos de expulsão em Portugal (1496-1497) e da violência da Inquisição (estabelecida em 1536 e encerrada formalmente em 1821).

Paradoxalmente, o fim da discriminação contra os cristãos novos (1773) e a diminuição do ímpeto inquisitorial fizeram desaparecer da vida brasileira quaisquer traços judaicos.

A progressiva liberalização da Colônia a partir da vinda da Corte, em 1808, até a sua completa emancipação, em 1822, permitiram que já em 1824 (ou 1826, não há certeza) surgisse a primeira comunidade judaica desde o tempo dos holandeses. A sinagoga dos judeus marroquinos, Shaar Hashamaim (A Porta do Céu), em Belém do Pará, logo depois de proclamada a Independência, é o marco do judaísmo livre em solo brasileiro.

O clima de tolerância do 2º Império e especialmente os interesses intelectuais de D. Pedro II ampliaram essa presença não apenas na Amazônia mas a estenderam ao Centro-Sul com a chegada de judeus alsacianos.

A liberdade de credos e a efetiva separação entre Igreja e Estado instituídas pela Constituição de 1891 foram essenciais para a atração de novos contingentes de imigrantes judeus de diferentes origens. O que não impediu, nos anos 30 e 40 deste século, a ocorrência de um hiato de angústias fruto da combinação de diversos fatores: a irrupção de um sentimento nacionalista logo transformado em xenofobia, o clima político decorrente das diferentes fases da ditadura Vargas e a influência nazi-fascista irradiada da Europa.

As condições para o florescimento pleno de uma identidade judaica no Brasil deram-se a partir da democratização de 1945 mas não em linha reta: a segunda fase do regime militar (1968 em diante) apresentou alguns retrocessos por força da permanente atração entre autoritarismo e anti-semitismo, mas também pela participação de judeus nos movimentos de resistência política.

Deste breve bosquejo histórico fica evidente que dos grupos minoritários, são os judeus os mais antigos (alienígenas). Mas, no caso dos judeus, nossa celebrada tendência para aproximações e amálgamas foi atalhada pela repressão inquisitorial e o sangue que dela jorrou ao longo de 300 dos 500 anos. E, posteriormente, pela persistência de alguns preconceitos político-raciais.

Comunidades como a italiana, alemã, sírio-libanesa ou japonesa, muito mais recentes, tiveram condições para apresentar-se de forma mais orgânica e contínua. Apesar do susto que os descendentes de algumas delas sofreram durante o período em que o país esteve em guerra com o Eixo (1942-1945). A comunidade israelita (o nome "judeu" ou "judaico" tinha conotações pejorativas) foi confinada e confinou-se durante grande parte destes cinco séculos, obrigada a um distanciamento e forçada discrição.
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