EM BUSCA DA ÁGUA


Foto Ilustrativa

Se no século XX, guerras e conflitos foram causados por diferenças ideológicas, religiosas e políticas, dentro de 50 anos, a água será um bem tão valioso quanto foi o petróleo em meados deste nosso século.


Edição 26 - Dezembro de 1999
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Em seu livro "O novo Orien-te Médio", Shimon Peres, ex-chanceler e atual ministro da Cooperação Regional de Israel, já afirmava que, no Oriente Médio, as próximas gerações lutarão não mais pela posse da terra, mas principalmente pelo controle dos recursos hídricos da região, fortemente marcada pela aridez do deserto.

A água é um elemento tão estratégico, que o acordo de paz assinado entre israelenses e palestinos, em 1993, incluiu de maneira clara o uso racional das escassas reservas de água doce da região. O tratado de 1994 entre Israel e Jordânia também abordou a questão da água, incluindo o compromisso do governo israelense de fornecer anualmente uma determinada quantidade de água ao seu vizinho. Atualmente, as negociações de paz com a Síria giram em torno do problema da escassez da água.

A questão da água não é um tema que preocupa apenas árabes e israelenses, Segundo dados divulgados durante o Habitat 2, evento internacional realizado em junho de 1996 em Istambul, Turquia, a água pot ável é aproveitada da seguinte maneira na Terra: 85% na agricultura; 10% na indústria; e 5% para uso direto. Na ocasião, os especialistas previram uma forte crise de água em alguns grandes centros urbanos.

Segundo alguns pesquisadores, no ano 2025, a cota disponível per capita de água por habitante no Oriente Médio será de aproximadamente 700 metros cúbicos. Para avaliar a extensão deste dado, basta mencionar que, atualmente, o consumo per capita na região é de 1500 mil metros cúbicos. Para os especialistas, o quadro em 2025 exigirá dos habitantes da região drásticas mudanças sociais, econômicas, políticas e até mesmo militares.

Por trás desse quadro apresentado pelos especialistas estão o crescimento demográfico, fatores climáticos como a redução no índice anual de chuvas, efeito estufa e evaporação, aliados à urbanização, poluição e salinização. O jornal afirma, ainda, que daqui a 50 anos, a água será um bem tão valioso quanto foi o petróleo em meados do século XX.

Os números comprovam que, já na atualidade, a situação no Oriente Médio não é tão fácil. Em termos gerais, 74% da região é coberta por desertos, sendo uma das zonas mais áridas do planeta. Em contrapartida, a população da região cresce cerca de 3% ao ano, dado que complica ainda mais o balanço hídrico. Em 17 anos, a população total desses países terá aumentado 55%, passando de 217, 4 milhões em 1983 a 337 milhões no ano 2000, sem nenhum aumento nas fontes de água.

O rio Nilo, no Egito, é importante não apenas para este país, mas também para a Etiópia e para o Sudão; o Tigre e o Eufrates, na Turquia - país aliado de Israel - é essencial também para a Síria e para o Iraque; e os lagos Kineret e Jordão são alimentados por bacias situadas nas Colinas do Golan, um dos pontos centrais da disputa entre Israel e a Síria.

Israel e os palestinos

Dizem os especialistas em Oriente Médio que por trás dos debates entre o "inevitável compromisso territorial e a necessária partilha da terra entre israelenses e palestinos", pontos mencionados nos Acordos de Oslo, está o controle sobre os recursos hídricos da região. O ponto é tão delicado que sua definição foi adiada para quando for determinado o status final dos territórios ainda ocupados por Israel.

Os palestinos defendem a idéia de que o fim da jurisdição israelense sobre territórios significa também a transferência do poder sobre os recursos hídricos a eles ligados, sem os quais afirmam não poder criar um país de fato autônomo. O controle crescente de grande parte da Cisjordânia pela Autoridade Palestina privaria Israel de cerca de um terço do total de seus recursos hídricos. Esta abordagem foi rejeitada pelo governo israelense.
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