Quando a Alemanha invadiu a Polônia, em 1939, dando início à Segunda Guerra Mundial, o Ishuv (judeus residentes na antiga Palestina) se viu numa situação ambígua. Por um lado, havia a confrontação com os ingleses, que eram os governantes do território e que tinham emitido naquele mesmo ano um documento chamado White Paper, destinado a coibir a entrada de judeus na então Palestina. Por outro, era imperioso apoiar e aliar-se aos ingleses que haviam declarado guerra à Alemanha. Foi, então, que David Ben Gurion resumiu a questão numa frase que se tornaria célebre: “Nós vamos lutar contra Hitler como se o White Paper não existisse e vamos lutar contra o White Paper como se não houvesse guerra”.
Em 1940, quando Churchill, simpatizante do sionismo, ascendeu ao poder na Inglaterra, a esperança era no sentido de que a restrição à imigração fosse abrandada. Não foi o que aconteceu, mas, mesmo assim, o Ishuv passou a colaborar com os britânicos e vice-versa. A Agência Judaica sugeriu, pela primeira vez, a criação de uma unidade militar judaica que fosse inserida nas fileiras do exército inglês. Não houve uma concordância explícita por parte dos ingleses, entretanto, para o que desse e viesse, foi organizado um treinamento militar para os jovens judeus, habilitando-os em táticas de comandos e estratégias de demolições e sabotagens.
Quando a Itália entrou na guerra, em 1940, o que levou o conflito às proximidades do Oriente Médio, Churchill decidiu apertar ainda mais o cinto do White Paper, porque as circunstâncias não aconselhavam uma rusga com os países árabes.
Ou seja: o governo de Sua Majestade preferiu ignorar o desespero dos judeus que precisavam escapar dos países sob domínio nazista e simplesmente não tinham para onde ir. Além disso, a atitude de Churchill não deu frutos. A maioria dos países árabes endossou o nazismo, alguns abertamente, como o Iraque, outros omitindo qualquer apoio aos aliados. Em 1941, Haj Amin al-Husseini, o Mufti de Jerusalém, emitiu um fatwa (declaração) contra os ingleses e rumou para a Alemanha, sendo recebido diversas vezes por Hitler e pelo Instituto Central Islâmico, onde, aclamado como “o Führer do mundo árabe”, pronunciou um discurso no qual disse que os judeus constituíam o “mais feroz inimigo dos muçulmanos” e “um elemento sempre corruptor no mundo”. O Mufti, inclusive, interveio quando Eichmann tentou fazer um acordo com os ingleses, pelo qual cinco mil crianças judias seriam trocadas por prisioneiros de guerra alemães. Sua declarada oposição àquele acordo teve acolhida e as crianças foram mandadas para Auschwitz.
Enquanto isso, a Agência Judaica concentrava todos seus esforços na chamada Aliá Beit, a vinda de embarcações ilegais conduzindo refugiados (ver reportagem O Herói que Comandou o Exodus, Morashá, no 74). Em terra, houve a proeza de trazer 1.350 judeus da Síria para a então Palestina, numa operação secreta e dificílima. Contudo, os ingleses endureciam e se endureciam. Em 1942, um navio chamado Struma, de bandeira romena, ancorou na Turquia com a intenção de seguir até a então Palestina. Sob pressão britânica, os turcos impediram que os judeus desembarcassem, embora eles já estivessem a bordo há 74 dias. E mais, ordenaram que o Struma zarpasse na direção do Mar Negro, onde um submarino russo, de forma inadvertida, o torpedeou, causando a morte de 796 pessoas.
Foi a gota d’água que transbordou na Agência Judaica. Depois de tal atrocidade, não seria mais possível qualquer entendimento com os ingleses. As esparsas notícias vindas da Europa dando conta do genocídio perpetrado pelos nazistas fizeram com que o ishuv se mobilizasse. A situação no país era tensa na medida em que o Afrika Korps alemão, comandado pelo general Rommel, colhia importantes vitórias no Norte da África e avançava na direção do canal de Suez, a um passo da então Palestina. |