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O Vidente de Lublin



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Edição 74 - dezembro de 2011

Muitos entre os mestres Chassídicos tinham o poder de prever o futuro, mas nenhum teve igual visão ao Rabi Yaacov-Yitzhak Horowitz, o Chozé de Lublin.

Os primeiros Mestres Chassídicos eram todos homens de grandes poderes espirituais. Faziam milagres e curavam através de sua fé, além de possuir um “sexto sentido” – o Ruach HaKodesh – o Espírito Sagrado – uma pequena dádiva de profecia. Mas entre todos eles, há um que leva o aposto de Chozé, o Vidente. Muitos outros tinham o poderde prever o futuro, mas nenhum teve igual visão. Assim sendo, este aposto ficou sendo unicamente seu.

Conta-se que esse Mestre do Chassidismo podia prever não apenas o futuro, mas também ver o passado distante e o espaço sideral. Era comum vê-lo próximo à janela, absorto, observando o que se passava nos continentes distantes. Era voz corrente que quando olhava determinada pessoa, ele conseguia identificar quantas vezes a alma da pessoa tinha encarnado – como, quando e onde.

Em sua presença, a pessoa se sentia abalada e transformada. O que mais impressionava eram seus olhos –de tamanho diferente, e assumiam uma inquietante imobilidade quando ele se fixava em alguém. Os Chassidim estavam convencidos de que quando fitava alguém, estava buscando o mais profundo de sua alma.

Além de ser vidente, ele era um Rebe, um guia, um amigo, um confidente e fazia milagres. As pessoas vinham pedir-lhe bênçãos e milagres e não saíam de mãos vazias. Inúmeras lendas falam de seus poderes. Os pobres, os doentes e os desesperados o procuravam, implorando que ele intercedesse aos Céus em seu favor. Judeus e não judeus acorriam a ele em bando, como se ele fosse seu último recurso. Ele tinha a cura para todas as dores e solução para todos os males, do corpo e da vida.

Erudito e místico, ele continua sendo um dos pilares do Movimento Chassídico. Juntamente com outros dos primeiros Mestres, ele intensificou a centelha acesa pelo Baal Shem Tov deflagrando uma bela chama – que rasgou a escuridão, iluminando a vida de incontáveis judeus que, de outro modo, teriam sucumbido à melancolia e ao desespero. Vejamos agora a história de sua vida.

Seus primeiros anos

O Rabi Yaacov-Yitzhak Horowitz nasceu em 1745, em uma aldeia perto de Tarnigrod, na Polônia. Como o Baal Shem Tov, ele cresceu só. Talvez tenha sido sua infância solitária o que mais tarde o levaria a abraçar o recém-fundado e vibrante movimento chassídico, cuja mensagem central baseava-se no amor, júbilo e companheirismo. Ele chegou ao movimento na qualidade de aluno, mas logo se tornaria um de seus maiores mestres. Diferentemente da maioria dos demais Rebes, ele não fundou dinastia própria: seus discípulos se tornaram líderes por mérito próprio.

Sabemos que ele foi uma criança brilhante e extraordinária. Descobriu seu dom de visão quando ainda era muito jovem. Aquilo era, para ele, um estorvo, e pedia a D’us que o livrasse daquele dom. Mas suas preces não foram atendidas.

Desde a mais tenra idade, tinha uma ligação especial com o Divino. Com três anos, já sabia todas as orações do serviço matinal de cor. E como fizera o Baal Shem Tov, muitos anos antes, metia-se na floresta para buscar D’us e com Ele falar. Costumava fugir da escola, sendo sempre repreendido pelo professor. Um dia, o Melamed conseguiu segui-lo, sem que ele o visse, pela floresta, para descobrir o que aquela criança lá fazia, todos os dias. Para sua surpresa, ouviu o menino bradar: “Shemá Israel, Hashem é nosso D’us, Hashem é Um”. E, a partir daquele dia, nunca mais o repreendeu. Mas o pai do menino continuava intrigado com seu comportamento. “Por que você desperdiça seu tempo na floresta?”, perguntou ao filho. O garotinho de três anos lhe respondeu: “Estou procurando D’us”. “Mas D’us não está em todas as partes?”, disse-lhe o pai. “E não é Ele o mesmo em todas as partes?”. Ao que a criança retrucou: “Ele, sim, é. Mas eu não sou”.

Quando ele tinha 14 anos, Yaacov-Yitzhak foi para a Yeshivá. Estudava com um renomado Talmudista, o Rabi Moshe-Hersh Meisels, e, mais tarde com o celebrado Mestre do Chassidismo, o Rabi Shmuel (Shmelke) HaLevi de Nikolsburgo. Na Yeshivá de Rabi Shmelke, o regime era extremamente rigoroso – estudo e oração, com pouquíssimo tempo para o restante. Mas, o jovem Yaacov-Yitzhak tinha permissão de seguir seu próprio rumo. Livre das restrições impostas aos demais alunos, ele levava uma existência marginal: passava grande parte de seu tempo sozinho, orando e jejuando. Esforçava-se para purificar sua mente através da Devekut – a vinculação ao Divino. Apesar do esforço de Yaacov-Yitzhak de ocultar seus dotes e erudição, o Rabi Shmelke, ele próprio possuidor de poderes sobrenaturais, percebeu seu verdadeiro valor. Certa vez disse algo acerca desse discípulo que pouquíssimos podem dizer de seus Mestres: “Quando ele ora, até mesmo os anjos no Firmamento dizem Amén”.

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