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Dois anos antes, na capital francesa, oTalmud foi julgado como herético, na qualidade de “réu”, após uma farsa jurídica envolvendo a Igreja Católica, um judeu convertido ao cristianismo e o rei Luís IX. A pena era a execução pública da obra sagrada, na fogueira.
A pergunta que se interpõe é: por que justamente o Talmud? A importância dessa obra monumental para nós, judeus, não pode ser subestimada. O Talmud não é um único livro, mas uma obra que consiste de 63 tratados de assuntos legais, éticos e históricos. Seus dois componentes principais são a Mishná, tratados sobre a lei judaica, e a Guemará, composta de comentário e elucidação da primeira. É o Talmud que define e dá forma ao judaísmo, alicerçando todas as leis e rituais judaicos, pois enquanto a Torá Escrita – o Chumash (os Cinco Livros de Moshé) – apenas alude aos mandamentos, é a Lei Oral, codificada no Talmud, queos explica, discute e esclarece. O Rabino Adin Steinsaltz, responsável por sua tradução ao hebraico moderno, inglês e russo, assim se referiu à importância dessa obra: “Se a Torá é a pedra fundamental do judaísmo, o Talmud é seu pilar central”. Ademais, como outras religiões adotaram o texto da Torá Escrita –mesmo a tendo traduzido de forma errada, é o Talmud o verdadeiro divisor de águas, o texto sagrado que diferencia os judeus das outras nações do mundo.
Se nós, judeus, sempre tivemos consciência de que nossa sobrevivência como grupo dependia do estudo dessa obra magna, todos os que almejavam converter os judeus ou destruir o judaísmo, tinham essa mesma certeza. Por isso, quem declarava guerra à religião judaica, começava por proibir o estudo do Talmud, ameaçando quem desobedecesse com a pena de morte. Através do curso da história, em diferentes países e períodos, esta obra foi acusada, censurada, proibida e queimada. O ataque mais antigo ao Talmud remonta ao século 6, quando o imperador Justiniano tentou extirpar o judaísmo de seus direitos legais. Entre outros pontos, o Código Justiniano afirma: “A Mishná ou, como eles a chamam, a segunda tradição, nós a proibimos totalmente”. Justiniano proibiu o estudo da Mishná, pois, segundo ele, esta “distorcia” a Bíblia e prejudicava as atividades missionárias cristãs. E, em 712, os visigodos na Espanha proibiram os conversos de ler livros hebraicos.
No entanto, até o século 13, apesar das restrições impostas aos judeus pela Igreja, não havia, ainda, uma campanha declarada contra seus textos sagrados. Foram as ações de um apostata, Nicholas Donin, que resultaram no fatídico julgamento realizado no ano de 1240, em Paris. O evento teve conseqüências duradouras, além de ter desencadeado uma série de incidentes por toda a Europa, e influenciado atos anti-semitas subseqüentes durante os séculos que se seguiram. |