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História:

150 anos da Alliance Israélite Universelle



Foto Ilustrativa

Edição 70 - dezembro de 2010

Criada em Paris, há 150 anos, para lutar em prol dos judeus onde quer que sua religião lhes causasse sofrimento, a Alliance Israélite Universelle foi responsável pela fundação de uma rede de escolas que deram uma educação francesa e moderna a judeus da África do Norte e do Oriente Médio.

No dia 17 de maio de 1860, 17 jovens judeus reuniram-se na capital francesa para fundar a primeira organização judaica internacional moderna. Idealistas entusiasmados e herdeiros intelectuais do Iluminismo, eles empunhavam a bandeira dos ideais da Revolução Francesa de 1789, da ideologia que embasara a Emancipação e dos milenares ensinamentos do judaísmo – a crença em um D’us único e na redenção universal quando da Era Messiânica.

Difícil hoje imaginar o impacto que provocou a fundação de um organismo declaradamente político e internacional, cujo principal objetivo – apesar de universalista e de almejar o bem-estar de toda humanidade – era defender a dignidade e os direitos dos judeus. Sua criação era a cristalização de inúmeras tentativas anteriores de dar ao judaísmo dos tempos modernos uma expressão política. Para os jovens fundadores, isso se traduzia na recusa em aceitar qualquer compromisso quando estava em jogo a dignidade judaica. Eles acreditavam que quando um único judeu era atingido, todos eram atingidos. O lema da organização “Kol Israel Arevim Zé Bazé”, frase do Talmud que, literalmente, significa “Todos os judeus são fiadores um do outro”, ou seja, “todo judeu é responsável um pelo outro”, revelava seu comprometimento com a causa judaica.

Uma organização cujo objetivo era promover a solidariedade judaica em escala mundial pressupunha a existência de Kol Israel, de um Povo Judeu, ainda que os fundadores falassem em termos de “correligionários”. O paradoxo supremo do qual não se davam conta, ao evocar a unidade e solidariedade do Povo Judeu, é que não vislumbravam um renascimento nacional, tampouco uma volta dos judeus à terra de seus ancestrais. O que pretendiam era atuar em todas as esferas políticas, diplomáticas e educativas, entre outros, para ajudar os seus correligionários de todo o mundo a se tornarem, em seus respectivos países, cidadãos com plenos direitos.

Os antecedentes

No decorrer dos séculos 18 e 19, a França fizera mais pelos judeus do que qualquer outra nação. Os ideais da Revolução de 1789 – “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” – e os contidos na “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”, segundo a qual “todos os homens nascem iguais e permanecem livres, com iguais direitos” e que “nenhum homem poderia ser molestado por suas opiniões, mesmo as religiosas”, haviam despertado as esperanças judaicas. Estas se concretizaram na França em 1791, quando foram emancipados os 40 mil judeus que viviam no país. O novo status foi recebido com entusiasmo, pois era a primeira vez, desde a queda do Império Romano, que judeus da Europa eram cidadãos com plenos direitos. A partir de então, eles se envolvem na vida política e social de seu país e diversificam suas atividades econômicas, pois acreditam ser perfeitamente possível viver como judeus praticantes e franceses patriotas. A emancipação, no entanto, exigia dos “cidadãos de fé mosaica”, além da necessidade de adquirir uma educação superior moderna, grande dose de aculturação, ainda que não a total assimilação.

Os exércitos de Napoleão levaram aos países ocupados os ideais da Revolução. Apesar de ter sido contraditória a política interna judaica de Napoleão – que assumiu o poder em 1799 e governou a França até 1814, ele fez mais pela emancipação dos judeus europeus do que tudo o que lhes ocorrera nos séculos anteriores. Porém, com a queda de Napoleão, a Europa entra numa nova fase de conservadorismo político e diluem-se muitas das conquistas civis dos judeus. Na França, no entanto, apesar da hostilidade da Igreja e da vitalidade dos antigos preconceitos anti-judaicos, os direitos dos “cidadãos de fé mosaica” são mantidos e, em fevereiro de 1831, o “culto israelita” passa a ser equiparado ao das outras religiões, fazendo jus, assim, a uma dotação do Estado.

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