O legado de Theodor Herzl - ed.69 - Página1

História:

O legado de Theodor Herzl
por Prof. Reuven Faingold



Foto Ilustrativa

Edição 69 - setembro de 2010

Há 150 anos, em 2 de maio de 1860, nascia em Budapeste Theodor Herzl, o estadista judeu que não teve a felicidade de conhecer o estado que idealizou. “Se não for em cinco anos, certamente em cinqüenta, os judeus terão seu próprio estado”, vaticinou em 1897.

Sua profecia se concretizaria. Em 1947 se votava a “Partilha da Palestina” e, pouco depois, o pequeno Estado de Israel declarava sua independência.

Theodor Herzl, uma figura controversa de personalidade complexa, conhecia como poucos os meandros da vida pública européia; mas era muito infeliz em sua vida pessoal. Húngaro de nascimento, culturalmente alemão e austríaco por naturalização, o precursor do sionismo sempre foi retratado como um judeu assimilado, no entanto, extremamente sensível diante do amargo destino dos judeus.

O pensamento de Herzl se sustentava na convicção de que os judeus deviam obter seu próprio Estado com a cooperação de governos em que fermentava o anti-semitismo. “Patrocinem nosso esforço para que suas mãos não se manchem de sangue quando houver uma eclosão bárbara de ódio aos judeus”, dizia Herzl aos governantes, dentre eles o Kaiser alemão e o Sultão turco. A maioria dos judeus, contudo, não via, como ele, a tempestade que se aproximava. Inclusive muitos dos judeus encaravam o movimento sionista por outros ângulos, aspirando outras prioridades, entre estas, a empatia com as idéias socialistas.

Enquanto Herzl incluía no seu programa sionista a solução de problemas sociais e culturais, ele reforçava a necessidade de salvar aqueles judeus que estivessem em situação de perigo imediato ou previsível, em futuro próximo. Foi assim que seguidores como Max Nordau e Wladimir Z. Jabotinsky deram total prioridade à saída de judeus das zonas em que era latente o perigo de vida.

Herzl registrou suas idéias sobre o futuro do Povo Judeu na obra Der Judenstaadt (O Estado Judeu), publicada em 1895. A seguir, nossa reflexão mencionará alguns trechos dessa famosa obra e a vigência de suas principais idéias nos dias
atuais.

Judenfrage, instituições e possíveis territórios

Em “O Estado Judeu”, Theodor Herzl traça um plano sistemático para resolver o que ele mesmo denominaria de Judenfrage ou questão judaica. Segundo ele, “a questão judaica existe em todo lugar em que os judeus vivem, por menor que seja seu número”.

“Compreendo o anti-semitismo, que é um movimento complexo. Em minha qualidade de judeu, encaro este movimento sem ódio e sem medo. Para resolver a questão judaica é preciso transformá-la numa questão política universal, regularizada pelos conselhos dos povos civilizados”. Passados mais de 100 anos desde que Herzl registrou estas palavras, constatamos que muito pouco mudou, pois o anti-semitismo ainda está latente na Europa, principalmente pelo ódio disseminado pelo Irã contra o jovem Estado de Israel.

Herzl idealizou duas instituições para direcionar os judeus até o novo território. A primeira era a “Society of Jews”, entidade destinada a negociar politicamente um território. A segunda era a “Jewish Company”, órgão responsável pela liquidação total dos bens e fortunas dos imigrantes judeus, bem como pela organização da vida econômica no novo país. Esta última instituição funcionaria como uma espécie de banco imobiliário à disposição dos candidatos decididos a se mudar para o novo Lar Nacional. De fato, a idéia era nobre, porém sua concretização requeria, por parte dos judeus, uma alta dose de confiança e credibilidade. Ela não vingou.

A Organização Sionista Mundial e a Agência Judaica tentaram trilhar esse caminho, mas fugindo propositalmente do formato das instituições herzlianas.Para Herzl, o lugar geográfico para o estabelecimento da nação judaica era irrelevante. Cogitou seriamente alternativas tais como Uganda, El-Arish (Egito), Argentina e a então Palestina otomana. Seu livro “O Estado Judeu” discute detalhadamente as duas últimas: “A Argentina é, por natureza, um dos países mais ricos da Terra, de imensa superfície, população escassa e clima temperado, e teria o maior interesse em nos ceder uma porção de seu território”.

A priori, o momento histórico era propício à idéia de Herzl, pois a JCA (Jewish Colonization Association), do Barão Hirsch, havia comprado terras na região. No entanto, após alguns contatos, o Programa Argentina caiu no ostracismo. Para Herzl, a idéia de obter a então Palestina do Sultão tinha mais consistência: “A Palestina é a nossa eterna pátria histórica. A simples citação de seu nome é um chamado poderosamente comovedor para nosso povo. Se Sua Majestade, o Sultão, nos conceder a Palestina, nós nos comprometeremos a sanear as finanças da Turquia”.

Segundo Theodor Herzl, os sionistas formariam um bloco aglutinador contra a primitiva Ásia: “Constituiríamos a vanguarda da cultura em sua luta contra a barbárie”. Assim, continuava Herzl, “manteríamos relações com toda a Europa, que, por sua vez, teria de garantir nossa existência”.

E a Europa aceitaria de bom grado a existência dos judeus? Quão errado estava o precursor do sionismo! Desde os primórdios do século 20 até hoje, a Europa continua registrando o maior índice de anti-semitismo, e seus países censuram qualquer atitude adotada pelo Estado de Israel.

Anterior  1234  Próxima
N.79/março 2013
Clique acima e consulte as edições anteriores.

Maio 24
15 Sivan

horário
17:11

Maio 25
16 Sivan

horário
18:05