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Icchak Manski, judeu de 17 anos, morava perto de Vilna, metrópole do
Báltico, e, aprisionado num gueto pelo inimigo, decidiu fugir para a
floresta e lutar. Passou quatro anos no combate aos horrores da guerra,
à constante escassez de alimentos e aos implacáveis invernos. Conviveu
ainda com os irmãos Bielski e sua comunidade, mais de 1.200 pessoas,
fugitivos da barbárie do nazismo que encontraram refúgio nos bosques
da Bielorússia.
Icchak Manski sobreviveu ao Holocausto e vive em São Paulo há mais
de 60 anos, onde mantém alguns hábitos antigos, como a inquietude, apesar
da idade avançada e das dificuldades para locomoção, e como o elo afetivo
com a sinagoga que freqüentou nos últimos anos. A seus amigos de reza,
às vezes mencionava a história dos irmãos Bielski. Rápido e decidido
nas ações, Manski costuma ser econômico nos relatos sobre os anos do
sofrimento nas florestas européias. Recentemente, voltou a ser indagado
com mais freqüência sobre os anos dramáticos da 2ª Guerra Mundial. E
concedeu entrevista ao Instituto Morashá de Cultura.
A biografia de Manski se encontra com a impressionante história dos
irmãos Bielski e dos "judeus da floresta", que foi parar em páginas
de livros e nas telas de cinema, com o lançamento, no final do ano passado,
de "Defiance", exibido no Brasil com o nome "Um Ato de Liberdade". Sua
avant-première foi promovida pelo Instituto Morashá, em maio deste ano,
no auditório da Escola Beit Yaacov em São Paulo. O ex-partisan, que
nasceu em 1922 e chegou ao Brasil em 1947, assistiu ao filme estrelado
por Daniel Craig, o atual "James Bond", no papel de Tuvia Bielski, o
líder da comunidade.
"O filme eu vi, mas não foi bem assim", comentou, quase sempre lacônico,
Icchak Manski. O sobrevivente da guerra, que às vezes entremeia o seu
discurso em português com expressões em iídiche, refere-se ao clima
de tensão que havia na comunidade refugiada na floresta. "A falta de
comida era o maior problema, não tínhamos como comprar e, se plantássemos,
levaríamos de cinco a seis meses para colher e cozinhar", recordou Manski.
Os irmãos Bielski, sob a liderança de Tuvia, levaram a comunidade para
rincões remotos da mata, onde conseguiram abrigo da agressão nazista
e onde puderam instalar, por exemplo, sinagoga, sapataria e barbearia.
Os "judeus da floresta" chegaram a contabilizar 1.230 pessoas, em sua
ampla maioria idosos, mulheres e crianças. As atividades armadas ficaram
por conta de apenas cerca de 150 integrantes do grupo.
Icchak Manski preferiu a ofensiva. Em vez de permanecer com os "judeus
da floresta", optou pela aproximação com os soviéticos, a fim de se
engajar mais diretamente nos combates contra o inimigo nazista. Nos
cerca de quatro anos de ações militares, o jovem judeu nunca se desgrudou
de uma companhia: a metralhadora. A arma havia sido montada por ele
próprio, a partir de peças soviéticas roubadas metodicamente de um escritório
dos nazistas, ao longo de oito meses. Em 1941, os nazistas obrigaram
Icchak a cuidar das dependências de um comitê montado para tratar das
questões judaicas na região de Lida, a cidade natal da família Manski,
e onde o pai trabalhava como açougueiro. "Casher, é claro", observou
Ichaak, ao relatar sua história. Nas memórias da família, destaca-se
também a figura materna, Sheine. "Adorava ouvir meu pai contar uma história
sobre sua mãe", narrou Sonia, sua filha, arquiteta, nascida em São Paulo,
e autora do livro Sem-Cerimônia, em que alguns trechos se dedicam
a resgatar, com um texto irretocável, a história familiar.
Escreveu Sônia sobre a avó: "De acordo com meu pai, ela era uma 'justa'
(que corresponde à linda palavra em hebraico tzadiká) pelos atos caridosos
que praticava. Todas as sextas-feiras, não satisfeita de fazer pão apenas
para sua família, assava fornadas sobressalentes para depois distribuir
aos judeus carentes da cidade. O detalhe mais simpático era a ajuda
que pedia aos filhos. Um de cada lado, carregavam uma alça da sacola.
Para mim, a imagem dessa mulher a distribuir pães era a personificação
da generosidade".
Além da religião, o sionismo também ocupava espaço importante na vida
de Icchak Manski, seguidor das idéias de Zeev Jabotinsky, patrono das
idéias de grupos sionistas direitistas. O jovem judeu de Lida não se
importava em montar a charrete para ouvir palestras de seu guru político,
por exemplo, em Vilna. "Havia o sonho de ir para Israel, o idealismo
era muito grande", lembrou Icchak Manski. Sobre a situação de sua comunidade
naquele começo de século 20, na Europa oriental, ele foi taxativo: "Havia
muito anti-semitismo".
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