Um partisan na floresta dos irmãos Bielski - ed.65 - Página1

HOLOCAUSTO
Um partisan na floresta dos irmãos Bielski
por Jaime Spitzcovsky


Foto Ilustrativa

Edição 65 - setembro de 2009

Corria o ano de 1941. As tropas de Adolf Hitler se lançaram contra o território soviético e, na marcha rumo a Moscou, encontraram populações judaicas condenadas à morte pela máquina nazista de extermínio.

Icchak Manski, judeu de 17 anos, morava perto de Vilna, metrópole do Báltico, e, aprisionado num gueto pelo inimigo, decidiu fugir para a floresta e lutar. Passou quatro anos no combate aos horrores da guerra, à constante escassez de alimentos e aos implacáveis invernos. Conviveu ainda com os irmãos Bielski e sua comunidade, mais de 1.200 pessoas, fugitivos da barbárie do nazismo que encontraram refúgio nos bosques da Bielorússia.

Icchak Manski sobreviveu ao Holocausto e vive em São Paulo há mais de 60 anos, onde mantém alguns hábitos antigos, como a inquietude, apesar da idade avançada e das dificuldades para locomoção, e como o elo afetivo com a sinagoga que freqüentou nos últimos anos. A seus amigos de reza, às vezes mencionava a história dos irmãos Bielski. Rápido e decidido nas ações, Manski costuma ser econômico nos relatos sobre os anos do sofrimento nas florestas européias. Recentemente, voltou a ser indagado com mais freqüência sobre os anos dramáticos da 2ª Guerra Mundial. E concedeu entrevista ao Instituto Morashá de Cultura.

A biografia de Manski se encontra com a impressionante história dos irmãos Bielski e dos "judeus da floresta", que foi parar em páginas de livros e nas telas de cinema, com o lançamento, no final do ano passado, de "Defiance", exibido no Brasil com o nome "Um Ato de Liberdade". Sua avant-première foi promovida pelo Instituto Morashá, em maio deste ano, no auditório da Escola Beit Yaacov em São Paulo. O ex-partisan, que nasceu em 1922 e chegou ao Brasil em 1947, assistiu ao filme estrelado por Daniel Craig, o atual "James Bond", no papel de Tuvia Bielski, o líder da comunidade.

"O filme eu vi, mas não foi bem assim", comentou, quase sempre lacônico, Icchak Manski. O sobrevivente da guerra, que às vezes entremeia o seu discurso em português com expressões em iídiche, refere-se ao clima de tensão que havia na comunidade refugiada na floresta. "A falta de comida era o maior problema, não tínhamos como comprar e, se plantássemos, levaríamos de cinco a seis meses para colher e cozinhar", recordou Manski.

Os irmãos Bielski, sob a liderança de Tuvia, levaram a comunidade para rincões remotos da mata, onde conseguiram abrigo da agressão nazista e onde puderam instalar, por exemplo, sinagoga, sapataria e barbearia. Os "judeus da floresta" chegaram a contabilizar 1.230 pessoas, em sua ampla maioria idosos, mulheres e crianças. As atividades armadas ficaram por conta de apenas cerca de 150 integrantes do grupo.

Icchak Manski preferiu a ofensiva. Em vez de permanecer com os "judeus da floresta", optou pela aproximação com os soviéticos, a fim de se engajar mais diretamente nos combates contra o inimigo nazista. Nos cerca de quatro anos de ações militares, o jovem judeu nunca se desgrudou de uma companhia: a metralhadora. A arma havia sido montada por ele próprio, a partir de peças soviéticas roubadas metodicamente de um escritório dos nazistas, ao longo de oito meses. Em 1941, os nazistas obrigaram Icchak a cuidar das dependências de um comitê montado para tratar das questões judaicas na região de Lida, a cidade natal da família Manski, e onde o pai trabalhava como açougueiro. "Casher, é claro", observou Ichaak, ao relatar sua história. Nas memórias da família, destaca-se também a figura materna, Sheine. "Adorava ouvir meu pai contar uma história sobre sua mãe", narrou Sonia, sua filha, arquiteta, nascida em São Paulo, e autora do livro Sem-Cerimônia, em que alguns trechos se dedicam a resgatar, com um texto irretocável, a história familiar.

Escreveu Sônia sobre a avó: "De acordo com meu pai, ela era uma 'justa' (que corresponde à linda palavra em hebraico tzadiká) pelos atos caridosos que praticava. Todas as sextas-feiras, não satisfeita de fazer pão apenas para sua família, assava fornadas sobressalentes para depois distribuir aos judeus carentes da cidade. O detalhe mais simpático era a ajuda que pedia aos filhos. Um de cada lado, carregavam uma alça da sacola. Para mim, a imagem dessa mulher a distribuir pães era a personificação da generosidade".

Além da religião, o sionismo também ocupava espaço importante na vida de Icchak Manski, seguidor das idéias de Zeev Jabotinsky, patrono das idéias de grupos sionistas direitistas. O jovem judeu de Lida não se importava em montar a charrete para ouvir palestras de seu guru político, por exemplo, em Vilna. "Havia o sonho de ir para Israel, o idealismo era muito grande", lembrou Icchak Manski. Sobre a situação de sua comunidade naquele começo de século 20, na Europa oriental, ele foi taxativo: "Havia muito anti-semitismo".

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