Aristides Sousa Mendes - ed.64 - Página1

HOLOCAUSTO
Aristides Sousa Mendes


Foto Ilustrativa

Edição 64 - abril de 2009

Diz o Talmud: "Quem salva uma vida é como se salvasse o mundo inteiro". O que dizer, então, de quem salva mais de 30 mil pessoas da morte certa, à custa da segurança de sua família e da sua própria? Foi o que fez Aristides de Sousa Mendes, cônsul de Portugal em Bordeaux, no sul da França.

Contrariando as ordens do ditador português, Antonio Salazar, de não emitir vistos portugueses de trânsito para os considerados "indesejáveis" e, principalmente, os judeus, o diplomata concedeu milhares de vistos a refugiados, na França já em mãos nazistas.

Chamado de volta a Portugal, o cônsul foi punido por Salazar por desobediência, tendo a aposentadoria da carreira diplomática antecipada, sem qualquer rendimento. Desprezado e condenado ao ostracismo, faleceu pobre e esquecido, em 1954, deixando sua esposa e filhos em situação de extrema penúria. Mas, até o final de seus dias, jamais se arrependeu de sua atitude, pois, como costumava afirmar: "Se tiver que desobedecer as ordens, prefiro estar com D'us e contra os homens, do que com os homens e contra D'us".

Em reconhecimento por sua coragem, Sousa Mendes foi homenageado, em 1966, pelo Yad Vashem - Autoridade Israelense para Recordação dos Mártires e Heróis do Holocausto, com o título de "Justo entre as Nações", a medalha com a citação do Talmud acima mencionada e o plantio de uma árvore em sua memória. Em Portugal, onde, durante décadas, o nome do ex-cônsul sequer era mencionado, a notícia da premiação foi censurada pelo governo de Salazar.

Personalidade singular

Aristides Sousa Mendes nasceu em 19 de julho de 1885, em Cabanas de Viriato, Portugal, filho de aristocrática família católica, conservadora e monarquista. Em 1908, já na carreira diplomática, casa-se com uma prima, com quem tem 14 filhos. Dois anos mais tarde, quando é nomeado cônsul em Demerara, na Guiana Francesa, acontece a Revolução de 5 de Outubro que instaura a República em Portugal.

Apesar de monarquista, Sousa Mendes é um profissional de confiança, por isso é mantido no serviço diplomático. Nos anos seguintes, foi cônsul em Zanzibar, Curitiba, São Francisco (nos Estados Unidos), São Luís do Maranhão e cônsul-interino em Porto Alegre. Retornou a Lisboa em 1926 e, pouco depois, eclode a Revolução de 28 de Maio, instalando a ditadura militar em Portugal. Em 1927 é nomeado cônsul em Vigo, na Espanha, e, em 1929, cônsul-geral em Antuérpia (Bélgica), onde, em 1936, foi condecorado pelo rei Leopoldo III como Decano do Corpo Diplomático.

Em Portugal, nesse ínterim, Salazar, com poderes ilimitados, se torna ditador. Em 1938, dois anos antes da invasão da França pelos alemães, ele nomeia Sousa Mendes cônsul geral de Portugal em Bordeaux, cargo que este ainda ocupava quando eclode a 2a Guerra Mundial, em setembro de 1939.

Em seu avanço rápido pela Europa, as tropas de Hitler espalhavam perseguições, violência, terror e morte. Os judeus e todos os considerados "inimigos do Reich" fugiam de cidade em cidade, de país em país, na tentativa desesperada de se salvar. O sul da França, geograficamente mais afastado da provável entrada nazista quando se iniciasse o inevitável ataque à nação francesa, era visto como refúgio temporário. Assim, Bordeaux passa a ser destino de milhares de refugiados, de todas as nacionalidades, que, em fuga dos nazistas, queriam ir para Espanha, cruzando Portugal por terra, para de lá tentar escapar do continente europeu pelo Oceano Atlântico.

Ao ver crescer sobremaneira o número de solicitações de vistos de trânsito, Lisboa baixa uma nova portaria sobre sua emissão, a Circular 14, de 11 de novembro de 1939, que trazia o nome do secretário geral do Ministério das Relações Exteriores (MRE), Teixeira de Sampaio, com a observação "pelo Ministro" ao lado da sua assinatura. "Ministro", entenda-se, era o próprio Salazar. As especificações da portaria acabavam com a esperança dos milhares de refugiados, pois, a partir daquela data, não seriam mais emitidos vistos para determinados grupos sem autorização prévia do MRE. Entre os novos párias encontravam-se pessoas cuja cidadania era "indefinida, contestada ou em litígio"; apátridas, portadores de passaportes Nansen fornecidos pela Liga das Nações; russos; judeus "expulsos de países cuja cidadania possuíam ou onde residiam"; e qualquer pessoa sem condições de "retornar ao país de origem". As restrições tinham um alvo específico: os judeus e os antifascistas dos países ocupados pela Alemanha.

Sousa Mendes fica estarrecido com a nova regulamentação; uma profunda mudança na política de Portugal, conhecido pela hospitalidade com os estrangeiros. O mais grave era a restrição clara e inequívoca em relação aos judeus. Advogado por formação e católico fervoroso, considerava a lei desumana, racista e, acima de tudo, anticonstitucional. Repugnava-o a simples idéia de perguntar a um requerente do visto se era judeu.

Como responsável pela missão portuguesa em uma cidade que vinha sendo literalmente invadida por refugiados em desespero, era difícil obedecer à determinação do governo e ficar indiferente aos incontáveis apelos. Portanto, apesar da nova portaria, procurava contornar as restrições. No período anterior à capitulação da França perante Hitler, os casos foram esporádicos, como o do rabino austríaco Arnold Wiznitzer. Ele sabia que não estava a salvo das garras nazistas, pois, contra qualquer lógica, a França havia reagido ao alastramento da guerra com a internação, em campos especiais, dos fugitivos do nazismo refugiados em seu território. Temendo ser internado, Wiznitzer vai ao cônsul Sousa Mendes, que lhe concede o visto sem solicitar a pré-autorização do Ministro, em novembro de 1939. Concedeu outro visto, este ao Prof. Eduardo Neira Laporte, basco, comandante-médico do exército republicano espanhol.

As irregularidades cometidas pelo cônsul português com estes e outros vistos "irregulares" eram detectadas pela polícia política portuguesa assim que os refugiados chegavam a Portugal. Numa carta de 24 de abril de 1940, o Secretário Geral do Ministério, escrevendo em nome de Salazar, recorda a Sousa Mendes as sérias violações regulamentares que cometera, alertando-o de que "novas infrações seriam consideradas flagrante desobediência e resultariam, inevitavelmente, em processo disciplinar".

Anterior  1234  Próxima
N.79/março 2013
Clique acima e consulte as edições anteriores.

Maio 24
15 Sivan

horário
17:11

Maio 25
16 Sivan

horário
18:05