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Comportamento
O redescobrimento da família: uma perspectiva judaica
por Bernardo Kliksberg


Foto Ilustrativa

Edição 62 - setembro de 2008

As pesquisas não deixam lugar para dúvidas. No início de um novo milênio e em meio a mudanças tecnológicas vertiginosas e uma crescente perplexidade sobre qual erá o futuro de uma humanidade afogada em profundas contradições, há uma instituição que, em vez de perder vigência, tem concreta relevância, cada vez maior - a família. Em um recente congresso internacional sobre a família, as contribuições das mais variadas disciplinas foram unânimes.

A família cumpre, atualmente, funções decisivas nos campos cruciais para o ser humano e a sociedade. É a principal unidade de saúde preventiva da sociedade. A atenção e cuidado com a criança na primeira infância são centrais para os níveis de saúde futuros de toda a sua vida. O desempenho educativo de crianças vindo de lares onde os pais apóiam e acompanham seus estudos é muito melhor do que o das crianças provenientes de lares enfraquecidos, desarticulados ou pouco responsáveis. O modelo de pensamento, análise e discussão recebidos no lar afetam profundamente o desenvolvimento de habilidades intelectuais importantes no mundo de hoje, como as do pensar independente e criativo. As pesquisas determinaram que o tipo de relação pai-mãe tende a ser reproduzido nos lares dos filhos. Entre outros aspectos, determinou-se que os maridos que praticam a violência doméstica, uma aberração muito freqüente no mundo atual, provêm em um percentual altíssimo de lares onde viram seus próprios pais agir desta forma.

Em uma época em que a criminalidade aumenta desenfreadamente, observa-se que o que se aprende do aspecto moral no âmbito familiar, nos primeiros anos de vida, é decisivo para que, mais tarde, o jovem caia ou não em condutas delituosas. Assim sendo, a família é percebida como o instrumento mais eficaz de prevenção do delito, a serviço da sociedade. Alguns economistas indicam, ainda, que não há nenhuma unidade produtora de serviços sociais, seja pública ou privada, que se possa comparar em eficácia à família. Esta gera serviços nutricionais, educacionais, de saúde e outros a seus membros, com a mais alta qualidade e os maiores níveis de eficiência existentes.

Sempre se conheceu o papel espiritual, emocional e ético da família. Mas agora se lhe agregam avaliações que indicam seu peso fundamental sobre aspectos concretos e básicos das sociedades, como todos os mencionados e muitos outros ainda por agregar.

A instituição criada por D'us como base do gênero humano, como afirma a Torá, é hoje "redescoberta", no início do Século 21, pelas ciências, como a unidade social mais capaz e efetiva com que conta o homem.Pode parecer que tal redescobrimento chega um pouco tarde, já que a família vivencia sérias dificuldades em diversos aspectos. Nas sociedades ricas e nas classes altas de países como os latino-americanos, a busca desenfreada por bens materiais e de poder como objetivos finais da vida, e o consumismo exagerado, relegaram à marginalidade valores e instituições não utilitárias, entre elas a família. Esta aparece para os yuppies, e aos que visam a ascensão social, como um obstáculo, com suas mensagens morais e suas exigências de fidelidade e respeito a pais e irmãos.

Nos setores pobres da América Latina e de outras regiões, a família sofre o embate das agudas penúrias econômicas. Estima-se que de 1980 a 1996 o número de pessoas abaixo da linha de pobreza sofreu um aumento de 63 milhões. Uma vítima desse processo de pauperização foi, sem dúvida, a família. Hoje, mais de 30% dos domicílios na região ficaram sob a responsabilidade da mãe, apenas, e em sua imensa maioria, de mães humildes. O desemprego e a miséria foram determinantes na ruptura do núcleo familiar. Políticas econômicas totalmente insensíveis a suas conseqüências sobre a família foram também responsáveis por estas realidades,cada vez mais agudas. Urge fortalecer a família e, para tanto, toda a sociedade deve empenhar-se ao máximo. Sem essa fonte inesgotável de valores, afeto e contribuições diários, o futuro das gerações jovens será sombrio e o da sociedade será um grande ponto de interrogação.

O judaísmo tem idéias estruturadas a este respeito desde suas origens, e sua consagração da família como entidade pilar da vida judaica é uma das características centrais da identidade judaica. "Honrarás teu pai e tua mãe" já prescreviam os Dez Mandamentos. No texto bíblico há um alerta drástico: "Amaldiçoado seja aquele que ultraja seu pai ou sua mãe" (Devarim, 27:16).

As normas básicas não deixam lugar a dúvidas nem a ambigüidades. Honrar os pais - aspecto básico da relação familiar - é um dever inevitável. As relações entre marido e mulher, pais e filhos, irmãos entre si e parentes imediatos são cuidadosamente definidas, buscando assegurar a harmonia do núcleo familiar. Maimônides ensina como devem ser as relações entre esposos: "Nossos Sábios sentenciaram que o marido deve honrar sua mulher mais do que a si próprio e amá-la como a si próprio".

Esta regra determinante foi ditada em períodos da mais virulenta discriminação entre os gêneros. Os pais, segundo prega o judaísmo, não devem favorecer um dos filhos, pois isto seria um erro. Devem, sim, cuidar da educação de seus filhos, isto é ponto pacífico, um compromisso vital básico. Os filhos, por sua vez, devem esforçar-se para dar satisfações legítimas a seus pais.

A Torá, em Gênese, assim narra o encontro de José, filho supostamente assassinado, e seu pai Jacob (Israel), após 25 anos de separação: "E aprontou José sua carroça e subiu ao encontro de Israel, seu pai. Em Goshen, se lhe apareceu diante dos olhos, atirou-se sobre seu pescoço, e chorou muito sobre seu pescoço." (Bereshit 46:29). Os rabinos enfatizam que com a expressão "se lhe apareceu diante dos olhos", o texto bíblico enfatiza que, apesar de tantos anos de separação, o pensamento de José estava fixo no prazer que tinha seu pai ao vê-lo. Entendeu que seu próprio prazer era secundário frente ao que sentia seu pai (citado pelo Rabino Zelig Plinskin, na obra "Ama teu próximo").

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